hiperexploração

Foi hoje publicado o decreto de lei que permite a abertura dos hipermercados ao domingo até à meia noite.

Em defesa desta medida, patrões e governo acenaram com a criação de 2000 postos de trabalho. No entanto, aquilo que a realidade nos diz é que o emprego no sector do comércio está praticamente ao nível do ano 2000 (751 mil empregos no 4º trimestre de 2000 e 753 mil em idêntico trimestre de 2009), não obstante terem sido licenciados mais de dois milhões de metros quadrados de grandes unidades. Ainda segundo a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, o alargamento do horário aos domingos não se traduzirá num aumento dos postos de trabalho, mas antes numa nova gestão dos recursos humanos com transferência de pessoal de períodos com menor fluxo de clientes para os novos horários de abertura. E a prová-lo, podemos dizê-lo agora, está o pedido que o ano passado as grandes superfícies fizeram para a autorização da semana de 60 horas. No horizonte destes grupos económicos não está a criação de emprego, mas antes o aprofundamento da exploração e da precariedade.

Por outro lado, importa perguntar que tipo de consequências terá esta medida nas quotas de mercado dos diferentes formatos de comércio. Não é difícil adivinhar que o pequeno e médio comércio serão os que mais rapidamente se ressentirão. Isto prenuncia o fim da diversidade comercial, que com ela arrasta a desertificação e o abandono dos centros das cidades: passaremos todos a consumir nos mesmos sítios e os mesmos produtos. Também é facto conhecido que o comércio tradicional é gerador de mais emprego do que o comércio das grandes superfícies. Por isso, é preciso saber quantos empregos custará esta medida. Feitas as contas, arrisco-me a dizer que os empregos eventualmente criados serão inferiores aos empregos perdidos.
Falemos agora dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras. Já trabalhei no comércio, em horário nocturno, e tinha direito a um fim-de-semana completo de seis em seis semanas. É fácil imaginar como isto desestrutura todas as relações sociais e familiares. O direito ao descanso e à vida com qualidade é um direito de toda a gente, sem excepção.

Esta medida, ao contrário do que pode à primeira vista parecer, não defende nem o direito dos consumidores nem o direito dos trabalhadores, mas tão-só o interesse concentracionista dos grandes grupos económicos.

Vai mal um país que acha que ter sete dias por semana para consumir é qualidade de vida e modernidade. Vai mal um país que confunde lazer e descanso com consumo.
[A imagem é de Barbara Kruger]

22 comentários:

Ana disse...

Mas que pequeno e médio comércio está aberto aos domingos?

Andrea Peniche disse...

Não está. O pequeno e médio comércio ressentir-se-á porque as pessoas passarão a incluir o domingo como dia de compras. Ou seja, não preciso de ir ao mercado ao sábado de manhã comprar frescos porque posso fazê-lo ao domingo no hipermercado.

Diogo Augusto disse...

Também o trabalho por turnos desestrutura a vida familiar. Se o pequeno e médio comércio se ressentir, terá bom remédio: fazer-se à vida. Se esse comércio ainda for minimamente relevante, sobreviverá, se não for, temos pena. Lamento mas se as pessoas deixarem esse pequeno e médio comércio dos centros históricos às moscas é porque, à partida, já lá iam contrariadas, não? Porque raio não posso fazer compras ao Domingo se há vontade privada de mo proporcionar? Para sustentar à força a mercearia do Sr. António que vende caro e só tem iogurtes da Yoplait?

Frederica Jordão disse...

Diogo, tens o condão de me deixar de queixo caído e olha que eu compro a Sábado para ler as fofocas...
Como deverás compreender, os pequeninos comerciantes são essenciais para espicaçar a "vontade privada". Se acabarem com eles - com a proximidade, com a pequeníssima receita com que o Sr. António paga os remédios na farmácia - como poderão os grandes ter ideias, contra quem hão-de eles competir?
E depois quem dá "pocket money" às Cátias Vanessas que ganham misérias na Pull & Bear e no Jumbo?

Tiago Ribeiro disse...

Como é, digamos assim, evidente, concordo com a abertura dos hipermercados 27 ou 28 horas por dia. Não vejo um - um - único argumento válido em sentido contrário. Como sou de esquerda, não sou, digamos assim, parvo. Algum - e ele há muitos - comércio tradicional vai ressentir-se, como refere a Andrea, precisamente porque não vale puto e, ao contrário do que diz a Frederica, não espicaça vontade privada nenhuma. Isto não significa que não haja efeitos predatórios irrazoáveis e concorrência materialmente desleal. Pelo que sou favorável a políticas públicas de valorização do comércio tradicional - design, espaço, etc. etc. -, embora saiba que muitas delas não passam de geradores de clientelas eleitorais à escala local. Mas que se foda, acho que sim. Agora fechar ao domingo porque induz o consumidor em erro? Palavra de honra.

Tiago Ribeiro disse...

Diogo, dá-le cum força :)

Frederica Jordão disse...

Quando fui irónica lembrei-me que talvez o Diogo estivesse a ser irónico mas já percebi que não :) Em países como a Croácia ou a Polónia o grande comércio não abre ao domingo por questões religiosas mas eu escolhi o materialismo histórico e dialético como droga por isso digo que isso é só mais uma pazada sobre a liberdade de escolha no consumo, uma estratégia de condicionamento muito apropriada para o momento de "crise", um populismo muito mais gritante que aquele que organiza feiras na rua em pequenas cidades, que permite uma urbanização saudável das cidades e a manutenção de laços de proximidade em zonas de população envelhecida e solitária que a leve a comer ao mac ao fim de semana. enough, Tiago? i'm in the mood...

Frederica Jordão disse...

i.e., "população envelhecida sem ninguém que..."

Ana disse...

E que tal terem uma oferta diferenciada e com valor acrescentado? É que se assim fosse duvido que alguém se fosse meter num centro comercial com corredores a perder de vista ao fim-de-semana.
O que vejo no meu bairro, muito central, é um pequeno comércio que nem se dá ao trabalho de ter fruta e legumes com bom aspecto ou sabor, pelo que me vejo mesmo obrigada a ter de ir aos "hipers". Com muita pena minha.
Esse argumento, para mim, não tem qualquer aplicabilidade.

Andrea Peniche disse...

O que me espanta, rapazes, é que a vossa análise se centre no consumo. O que pensais sobre o pequeno comércio é lá convosco; os sítios onde escolheis consumir não me interessam minimamente. Mas, e que tal ter como ponto de partida o trabalho com direitos? Isso é que era de esquerda!
E, Diogo, quem trabalha nos hipermercados já trabalha por turnos ou nunca reparaste que encontras a senhora da charcutaria ora de manhã ora à noite?
Por isso é que, apesar de haver vontade privada em me proporcionar o consumo ao domingo, eu recuso-a.

Diogo Augusto disse...

E porque é que não havia de se centrar no consumo? A questão é que, tendo como partida o trabalho com direitos, é completamente indiferente as grandes superfícies estarem abertas ao Domingo porque por essa lógica não estariam abertas nem ao Domingo nem a qualquer outro dia da semana.
Quando me referia ao trabalho por turnos, queria dizer trabalho por turnos em fábricas que trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana.
O "por isso" do teu comentário, Andrea, não me faz sentido nenhum. "Por isso" o quê? Porque têm gente a trabalhar por turnos? Porque obrigam pessoas a trabalhar ao Domingo? E todos os outros estabelecimentos comerciais que o fazem? Fecham-se? Parece-me que isto é mais um caso de Belmirofobia do que outra coisa qualquer.

P.S. - Tiago, dá-le cum força!

Ricardo Santos disse...

Viva o direito individual ao consumo! Quero lá bem saber da semana inglesa, que já nem inglesa é. Que se lixem os direitos dos trabalhadores. Se querem trabalhar, que se sujeitem.

Andrea Peniche disse...

Suspiro pelo dia em que fazer exames ao domingo não seja privilégio do Sócrates. Nesse dia, ver-te-ei, caro Diogo, feliz e contente por teres clientes para as tuas aulas dominicais. Havendo procura, as escolas até podiam laborar 24 horas contínuas, com trabalhadores a cumprir horários de 60 horas semanais, a recibos verdes e outras mordomias.
Aliás, os hipermercados deviam ser equiparados aos hospitais ou aos transportes públicos e considerados serviço público e, em caso de greve, deveria haver requisição civil para este sector.
Mercantilize-se a vida, mercantilize-se tudo. Os mercados vão gostar e vão reagir bem.
Depois da ironia, pergunto-te: achas que deve ser o mercado a organizar as nossas vidas? Achas mesmo que poderes ir ao hipermercado ao domingo vale a desestruturação e precarização da vida de centenas de trabalhadores? Achas que não conseguimos organizar as nossas vidas fazendo compras nos restantes dias de semana? Com toda a sinceridade, acho que isto é uma questão simples: ou cedemos ao mercado e aceitamos que ele organize as nossas vidas ou defendemos o trabalho com direitos.

Catarina Príncipe disse...

Claro que dá jeito ter hipermercados abertos ao Domingo, sobretudo para nós estudantes, profissionais liberais ou por conta própria que queremos e gostamos de fazer o que nos apetece ao Domingo (sagradinho, graças a deus) e queremos ter a liberdade (ou o privilégio?) de organizarmos as nossas rotinas de compra como bem nos apetece, nem que para isso tenha que haver gente que nunca tem o Domingo (sagradinho, graça a deus?) para também poderem fazer o que lhes apetece...
Já agora, já pensaram porque é que os iogurtes do sr. António são mais caros do que os mesmos no Continente? Há custa de quê (e de quem)?
E tenho a certeza de que quem trabalhe ao Domingo, conhecendo as fabulosas políticas de pleno emprego do sr. Azevedo, vai receber a triplicar (como é de lei)...

anarquista_duvall disse...

Vontade privada? Alguém desta gente conhece uma mercearia pública? A última vez que vi as do meu bairro eram todas privadas. Cabe ao Estado regular a concorrência, cabe ao Estado o equilíbrio nos sectores não públicos e este tipo de medidas só faz com que a máquina avassaladora que são as empresas a que estão agregadas as grande superfícies se tornem ainda mais sôfregas. Para além das questões de consumo directo estão também em causa a forma como estes fornecedores lidam com os produtores. Sabem quem é que paga a factura dos preços baixos nos hiper? Manter o mito que as mercearias são todas antiquadas, sem produtos e caras não passa mais do que uma análise superficial e básica do tecido comercial e especialmente concentrado em grandes centros urbanos. Saiam lá, vão pelas ruas das vossas cidades em vez de andarem pelos corredores pré-formatados e angustiantes de um shopping e percebam que a diferença não se faz só pelo que pagamos ou pelo que consumimos. Já nem sequer me alongo nas questões de trabalho... é fácil para quem tem um horário certo exigir que os outros/as não o tenham. Deve ser por causa disso que é sempre difícil arranjar professores para horários pós-laborais, ou os funcionários de serviços que fecham a porta uns minutinhos antes para não terem de atender depois da hora. Só porque as condições são más não o defendo como bitola para toda a gente. Fica mal a pessoas de esquerda dizerem-no e pensarem-no!

Frederica Jordão disse...

Imaginemos que o pequeno comércio - o do Sr. António - sucumbe à concorrência dos hipermercados. Como ficará o aspecto das cidades? Os prédios onde hoje se encontram os pronto-a-vestir, as mercearias, as pequenas livrarias e papelarias mantêm ainda inquilinos com rendas baixas, quer em lojas quer em habitação. Quando estes deixarem de pagar o arrendamento por falta de dinheiro serão, porventura, os bancos a tomar conta dos edifícios. Poderão fazer obras, com um bocadinho de esforço até manter os inquilinos com as suas rendas e transformar as zonas antigas das cidades em bairros yuppies para a juventude ambiciosa. Um dos grandes problemas é que... já não há yuppies! Com a precariedade que reina no trabalho já pouco pode a ambição e não é com recibos verdes que se transforma a baixa (de Coimbra, de Lisboa, do Porto, de Braga, de Faro, etc) em Notting Hill...
Diogo, Tiago: nunca fomos modernos.

Diogo Augusto disse...

Mas anda tudo maluco? O que raio tem o Domingo a ver com com a precariedade do trabalho nos hipermercados? Sabem que, se não se folga ao Domingo, folga-se noutro dia, certo? O problema da precariedade neste tipo de emprego não tem rigorosamente nada a ver com o trabalho ao Domingo, ela já existe nos outros dias da semana e o seu combate é outra coisa altogether.

E o resto que está aberto aos Domingos? Restaurantes, cafés, lojas de roupa, livrarias, lojas de discos? Fecha-se? Ou com esses não há problema porque dão contratozinhos tão bonitos e seguros que até são perfumados?

Se querem ir comprar à mercearia do Sr. António ou ao mercado, façam favor mas, se não se importam, eu prefiro o Continente, ok? Desculpem lá a deriva direitista. Deve ser a alienação dos corredores do supermercado.

Raquel Mota disse...

Eu sou trabalhadora do comércio, desse dos shoppings. Sou daquelas que apesar do cursinho na faculdade de letras (igual ao da Andrea) só encontrei trabalho a vender «utilidades para o lar». Tenho contrato a prazo, salário pouco acima do mínimo e horários rotativos: ora trabalho de manhã, ora faço os turnos da noite. Sim, é verdade que tenho duas folgas por semana, excepto no período do Natal em que estas são reduzidas a uma, um pequeno sacrifício para que o patrão não tenha que contratar mais ninguém. Só que ter duas folgas a meio da semana significa que não posso estar com o meu filho ao fim de semana porque tenho de ir trabalhar. E quando trabalho no turno da noite só o vejo de manhã, antes de ir para a creche. Por isso é que a precariedade não se mede apenas pelo tipo de contrato de trabalho que temos, mas também pelo tipo de vida que ele nos impõe.

Anônimo disse...

Defender uma medida porque achamos que devemos e podemos ter o direito a ter tudo, apenas porque as nossas necessidades podem ser supridas da forma como queremos, chamo a isso, individualismo e egoísmo, valores que não se coadunam muito com o ideário de esquerda.
É a nossa maneira egocêntrica de pensar e agir.

Vejamos: Como já aqui foi dito, esta medida em concreto não produz emprego, precariza-o ainda mais, depois não consta que haja ou tenha havido grandes ou pequenas dificuldades em as pessoas abastecerem-se desse tipo de bens de consumo ao domingo até às 20:00, isto porque tudo o que é Pingos Doces, Intermarchés, Modelos e afins estão todos abertos, com os mesmos preços e os mesmos produtos (duas notas, são apenas 147 os hipermercados com mais de 2000 m2 que não podem estar abertos depois das 13:00 de domingo, todas as outras "grandes mercearias" com menos de 2000 m2, podem e estão abertas e os donos em ambos os casos são todos os mesmos) e para finalizar o mais importante, vai criar mais desemprego e menores salários no resto do sector da distribuição e comercialização dos bens alimentares com a agravante da quase total concentração deste sector em dois ou três grupos económicos (podem já constatar quem irá definir e impôr os preços ao produtor, vejam os caso dos sectores leiteiro e do pescado.)
Compreendo e percebo que uma sociedade que vive um processo de total precarização a todos os níveis (do laboral ao social), onde a gestão e organização do quotidiano se torne por vezes caótica, anseie e possa "reivindicar" maior capacidade de opção. Não discuto isso.
Mas o que eu discuto é que porquê desestruturar, quando nada nem nenhuma premência existe, quando isso só produz maior desestruturação. porquê mais uma concessão, quando ela o único beneficio que traz é maior e maior aprofundamento do sistema, e não apenas no económico, também no campo social é mais uma machadada na alienação do "tempo livre" constantemente preconizada pelas actividades mercantilizantes e aquisitivas em detrimento do tempo de interacção pessoal.
Penso que falta alguma falta de alcance e capacidade de projectar outro tipo de organização social. É que viver colectivamente não é só viver em sociedade, é partilhar com ela responsabilidades, é que neste caso concreto não estamos a falar dos direitos estamos a falar dos deveres.

Pedro

Nuno Moniz disse...

Portanto, tudo o que a iniciativa privada estiver disposta a oferecer e se por acaso até for mais cómodo para alguns, não há problema. Obstante do que isso signifique para as pessoas empregadas que fornecem esse serviço.
É isso que percebi por alguns comentários de gente de esquerda aqui.

kandimba disse...

Há coisas que me chateiam solenemente nestas discussões.
Uma é a ideia de que o comércio de proximidade é antiquado, caro, nunca está aberto, etc. Eu faço as minhas compras todas na vizinhança, até porque sou um daqueles bichos raros que escolheu não ter carro apesar de todos os incentivos nesse sentido. Compro muita coisa em supers, é certo, quer pelo preço quer pela variedade (há certos produtos alimentares que não se encontram facilmente nas mercearias). Mas faço a maioria das compras, sobretudo de frescos, no comércio de proximidade e o que eu vejo são produtos com muito melhor qualidade que os dos supers e até (pasme-se!) mais baratos. Eu posso ir a uma mercearia e comprar maçãs que um agricultor vem entregar directamente, por ex, de grande qualidade e pago cerca de 50 cêntimos por quilo. Tentem encontrar maçãs a menos de um euro e qualquer coisa num super.
Esta lógica aplica-se a todas as grandes superfícies. A FNAC é caríssima, mas destronou a concorrência. A Worten e a Vobis vendem bem mais caro que as lojas de informãtica que ainda se encontram, mas são as pequenas lojas que fecham. Etc, etc.
Se as grandes superfícies triunfam, não é pelo preço. Eu lanço o desafio de alguém pegar num talão de compras do Continente e percorrer as mercearias a comprar preços. Eu já fiz esse exercício e vi que há produtos mais baratos mas também há produtos bem mais caros.
Outra ideia que me chateia é a de que o comércio de proximidade se tem de modernizar para poder competir e se não consegue que se lixe. Vamos a ver uma coisa: uma grande parte do lucro que os hipers têm vem da especulação.
O negócio é simples. O tempo médio de recebimento de um negócio a retalho é zero, porque os clientes pagam quando recebem a mercadoria. Mas o tempo médio de pagamento é 60, 90 dias ou mais. Isto significa que durante pelo menos 2 meses o hiper tem um monte de massa que pode meter num banco a render. Quando tiver de pagar aos fornecedores, já ganhou milhões em juros, mesmo que tenha usufruido de taxas de juro baixas. Agora expliquem-me como pode uma loja qualquer competir com isto.
O mais engraçado é que isto vem de pessoas que se queixam de que as lojas estão a fechar, que os agricultores estão na miséria, que o trânsito é caótico, que a precariedade é cada vez maior, etc. Meus amigos e minhas amigas, queixarmo-nos destes problemas todos sem querer atacar a sua raiz, que é a periferização do comércio em grandes superfícies, não faz sentido nenhum.
Eu não quero viver numa sociedade de shoppings e hipers. Não é uma questão de gosto pessoal, é uma questão política. O encerramento dos hipers ao Domingo é uma medida simbólica que trava o seu poder e eu lutarei por ela, tal como lutarei pelo fim desta espiral consumista que destrói cidades e comunidades. Não poderia ter outra opção, sendo ecologista e socialista. Por muito jeito que me desse ter um hiper aberto ao Domingo para fazer as minhas compras.

Juju disse...

Tenho 82 anos e já não me deixam conduzir o carro até ao continente. Sofro muito, mas tenho que fazer compras no Manel da mercearia lá do bairro que além de barrigudo, tem sempre umas piadas de mau gosto que chateiam. As azeitonas são ao peso e não me dão os frasquinhos com tampa de vácuo, as alfaces são as que chegam da horta do manel e algumas ainda têm terra agarrada, a fruta é pequena e sem o brilho da normalização das directivas comunitárias, apesar dos meus netos gostarem sempre que aqui vêm almoçar. A carne que compro é à medida do que preciso e nunca me sobram restos a encher o frigorífico e depois o caixote de lixo, e vejam lá que o Manel até me fia, que já me conhece há tantos anos - como se eu fosse um pobre. Tenho saudades de ir ao Continente e preferia ir aos domingos poque prefiro as homilías do sábado e porque assim sempre passeio nos corredores climatizados do shoping, no elevador do estacionamento, nos acessos pela VCI. Mas lá tenho que me arrastar até à mercearia do Manel e aturar a sua boa disposição, ver as galdérias de 70 anos na conversa como se não tivessem televisão com novelas para ficar em casa, a vida no bairro que estaria bem melhor com bancos ou mesmo sem nada, que o nada é para onde vamos todos e eu já quase lá estou, que quando me disseram que não podia conduzir, percebi que as grandes suprefícies ficavam-me fora do alcance e morri um pouco.

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