O programa do governo mastigado pelos precários
O homem do lixo
O News of the World, tablóide campeão de vendas ao domingo, pagou durante anos a agentes e responsáveis policiais para obter informações confidenciais sobre gente poderosa, entre eles alguns adversários do grupo. A violação dos "voice mails" foi denunciada primeiro pelo príncipe William e a investigação que condenou um editor e um detective privado apontava para a existência de apenas mais oito pessoas escutadas da mesma forma. O responsável pela investigação foi Andy Hayman, o oficial de polícia que liderou o contraterrorismo em Inglaterra entre 2005 e 2007, altura em que foi obrigado a demitir-se sob suspeita de fazer despesas sumptuárias. Foi então contratado como colunista dos jornais do grupo News International…
Os tablóides ingleses de Murdoch lucraram quase 100 milhões de euros em 2010, um dos anos mais complicados para os grupos de imprensa. A ambição do magnata era comprar a totalidade da cadeia televisiva BSkyB e aumentar ainda mais a influência que já tem sobre a política do país: Andy Coulson, o editor do News of the World que saiu na sequência das condenações das escutas em 2007, tornou-se em seguida director de comunicação dos Conservadores. Com a eleição de David Cameron no ano passado, Coulson foi para Downing Street dirigir a comunicação do primeiro-ministro e ganhar o salário mais alto de todos os assessores do governo... até se ter demitido de novo em Janeiro, pelo avolumar das suspeitas sobre o seu papel encorajador do uso das escutas para produzir manchetes.
Nos Estados Unidos, Murdoch detém a licença de 27 canais, entre eles a Fox News, defensora da guerra do Iraque e da administração Bush e por onde já passaram como comentadores os principais candidatos republicanos às próximas presidenciais. Mas se se provarem as suspeitas de que o grupo usou o mesmo método para escutar os "voice mails" de vítimas do atentado de 2001 nas Torres Gémeas, dificilmente encontrará quem o defenda, mesmo entre a direita que recebe generosos contributos financeiros do magnata.
Neste escândalo que vitimou o maior jornal de escândalos, as ligações perigosas entre os media, a política e a polícia compoem uma teia de favores e chantagens que provavelmente nunca será conhecida. Muita da informação privada recolhida não foi publicada, mas poucos crêem que não terá sido usada para servir os propósitos do todo-poderoso grupo mediático agora caído em desgraça. Até a primeira comissão de inquérito ao escândalo optou por não convocar Rebecca Brooks, a ex-editora e agora administradora do grupo que se transformou na vilã deste caso: despediu 200 jornalistas que nada tinham a ver com todos estes crimes, anunciando ao mesmo tempo que não se demite do cargo que detém na empresa. Ao que parece, os membros da comissão de inquérito tiveram receio das represálias do grupo e optaram por não arriscar ver alguma parte menos favorável das suas vidas expostas no Sun ou News of the World.
A queda de Murdoch é uma boa notícia para a liberdade de imprensa e para a democracia, independentemente do terramoto político que venha ainda a provocar. E é animador saber que no fim da história acaba por ser o jornalismo que está de parabéns: foi na redacção do Guardian, indiferente aos recuos na Justiça, que avançou a investigação para saber a verdade por detrás das escutas, ao ponto da Justiça não poder agora ignorá-la. A petição que corre em Inglaterra para que os políticos assumam as suas responsabilidades - e promovam um inquérito público que vá até às últimas consequências em vez de tentarem abafar a extensão da teia montada - diz-nos que a sociedade está vigilante em defesa da informação contra a manipulação. É sempre boa altura para limpar o lixo...
(também publicado no esquerda.net)
O Ensino Superior e o cabelo de PPC
Cultura feat. Michael Bolton & Rita Guerra

Elementary, my dear Moody.
Já só faltam 25 mil assinaturas!
A Iniciativa Legislativa de Cidadãos já recolheu 10 mil assinaturas de eleitores proponentes duma "Lei Contra a Precariedade". É uma lei que cria mecanismos simples para ultrapassar as situações mais típicas de precariedade: os falsos recibos verdes, a contratação a prazo para funções permanentes e a intermediação abusiva por empresas de trabalho temporário.
Para que esta Lei Contra a Precariedade possa ser a primeira iniciativa legislativa de cidadãos a chegar ao Parlamento português, recolhe tu também uma ou mais folhas destas (download aqui) e segue as instruções de preenchimento.
Vontade de governo
Pequenas questões políticas à parte, interessa-me regressar ao que significa este triunfo súbito da vontade de governo que atravessa o discurso da esquerda.
Em primeiro lugar, interessa-me porque é uma tentativa de resposta ao que muitas gentes de esquerda sentem. Chegam a qualquer um os ecos de pessoas que dizer estar fartas: fartas de serem governadas pelos mesmos de sempre com a mesma política de sempre, fartas de quem só diz mal mas não propõe nada (ainda que a esquerda jure sempre que tem propostas, este discurso é repetido mesmo pelas pessoas de esquerda), fartas dos protestos que fazem e que acabam “por não dar em nada”, concluindo-se que são em grande parte inconsequentes.
Em segundo lugar, interessam-me as cedências que contém a resposta do governo de esquerda. Claro que é necessário dialogar com os anseios que estão implícitos neste discurso, com a sua vontade de mudança política, de unidade, de responsabilidade. Mas a resposta do governo de esquerda parecendo uma via rápida de resposta a tudo isto, acaba por nos conduzir ao dilema: ou se quer mesmo ser governo à força toda e aí cede-se o fundamental do projecto político fazendo-se a defesa de um programa oposto àquele com o qual se está disputo a governar, ou se utiliza apenas o discurso do governo de modo inconsequente, sabendo que este não se irá concretizar.
Que tipo de resposta é esta de que nós é queremos mais do que o vizinho ser o governo de esquerda?
Ao propor um governo impossível nestas circunstâncias a esquerda está a responder à vontade de mudança? Não porque encarna a mudança numa forma não concretizável e que está destinada a gorar as expectativas que gera. Para já, um governo de esquerda ou se faz com o PS, e aí seria ceder ao austeritarismo liberal, ou sem o PS, o que neste momento não responde à vontade concreta de mudança porque é apenas uma miragem (e eu, em princípio, não tenho nada contra miragens desde que não se vendam como estando ali à esquina).
Ao propor um governo impossível nestas circunstâncias a esquerda está a responder à vontade de unidade? Não porque começa e acaba por colocar a unidade apenas em termos eleitorais e não porque a unidade possível entre PCP e BE não se concretiza facilmente e poder-se-ia repetir que a unidade destes com o PS neste quadro é tudo menos uma unidade de esquerda, apenas seria um serviço à troika.
Ao propor um governo impossível nestas circunstâncias a esquerda está a responder à vontade de se mostrar responsável? Talvez esteja, mas aqui é porque aceita que responsabilidade só tem quem jogue o jogo na sua modalidade mainstream, só haveria uma respeitabilidade mediática ou de governo, aceitando-se que qualquer projecto alternativo seja por natureza inconsequente, sobretudo se for ameaçador de alguns consensos e como tal atacado fortemente.
Mas aquilo a que a “vontade de responsabilidade” não pode ceder é ao chavão de que “protestar vale pouco, é brincar”, de que a política não se encaixa na forma do protesto, de que o protesto é uma pequena zanga que nos afasta da grande política. Um discurso de protesto terá certamente de apresentar alternativas e uma prática de protesto deverá ser inteligente e “responsável”. Pois claro, blá, blá, blá. Acontece que a desvalorização do protesto, porque não chega ao poder, é todo um programa. E não creio que seja lá muito de esquerda.
Portanto, quem quiser que compre o governo de esquerda como a solução genial para todos os problemas do país. Quem quiser que tente utilizar o governo de esquerda como palavra passe para entrar numa modalidade discursiva que pareça aceitável aos olhos mediáticos que querem fazer opinião. Agora, quem estiver contra a austeridade será, diga o que disser, um pária mediático, apresentado como ultrapassado ideologicamente, irrealista e cujas soluções dariam cabo do país. E face a isto não há política boazinha ou bem intencionada que sobreviva. Ou até, se houver alguém que queira trocar aquilo em que acredite por um lugar num governo PS, justificando que pensa que a sua magia vai “influenciar” decisivamente os rumos do país no seu casamento com um PS totalmente rendido à austeridade troika, que seja feliz ao fazê-lo.
Não é por aí que nos encontramos e não será essa a unidade da esquerda. Responsabilidade encontrá-la-emos nas formas de luta que soubermos estabelecer e na força que conseguirmos convocar face ao descalabro social programado pelos defensores da política da crise. Responsabilidade será não ceder a desvalorizar, aberta ou implicitamente a luta, o protesto. Porque é aí que está uma qualquer, por mínima que seja, possibilidade de mudança. E porque é aí, mais do que noutro lado, que nos encontraremos.
Louco por pretzels
Rui Rio, o presidente de câmara mais alemão do país, prepara-se para inaugurar mais um episódio do Circuito da Boavista já nesta sexta-feira. À boleia das corridas, espera ele que um mínimo de 32 milhões de euros entre directamente para os cofres da autarquia.
Tendo em conta os prejuízos das edições anteriores, penso que Rui Rio se estará a referir ao incalculável valor coltoral desta iniciativa, na formação de públicos e criação de massa crítica na áreas da motorofilia, pneus e juntas afins.
No ano em que o FITEI teve de reduzir o número de dias e o Fazer a Festa foi desalojado do Palácio de Cristal, congratulem-se os amantes de carros, motas e cheiro a gasolina queimada que vão passar o próximo fim-de-semana com gasosas na mão e panamás na cabeça, a ver os “aceleras” percorrer as avenidas, agora pistas, da cidade.
Nós, os outros, enquanto a direcção não muda vamos arranjando outros escapes.
A Bruna americana
Depois de muito criticado por usar apenas uma toalha presa à cintura, Anthony Weiner está a ser pressionado para atirar a toalha ao chão. Até o progressista Obama juntou a sua voz aos apupos de “imoral, vergonhoso, inadmissível” e fala de “distracções pessoais” num discurso tão sexualmente limpo que chega a comparar sexualidade com hipotecas.
Agora, Weiner vai gozar uma licença para efectuar um “tratamento profissional”.
Que tratamento? Envolve terapia de casal para tirar fotografias em conjunto com a esposa, Huma Abedin? Implica ensinar-lhe os prazeres da pornografia online? Ou massagens tailandesas de fazer esquecer qualquer romance virtual?
Se as fotografias foram tiradas em casa, na banheira do congresso ou no restaurante Chaxoila, é-me indiferente. O que Weimar faz com os seus retratos, mais ou menos em pelota, é com ele e com Huma. Se ela não gosta da forma que o marido se diverte na internet, vai haver quem lhe critique o gosto, mas é lá com eles.
Apesar de tudo indicar que o percurso político de Weiner está seriamente abalado, haja esperança, numa sondagem efectuada hoje, 56% dos eleitores nova-iorquinos considera que Weiner não se deve demitir.
Talvez, os tempos estejam a mudar.
A dialéctica do ingénuo e do cínico
Sei que me devia andar a dedicar ao aprofundamento da blocologia a que, por estes dias, toda a gente se dedica, da blogosfera até aos cafés (não necessariamente por esta ordem). Sei que, mais uma vez, gastei tempo demais num texto que é chato, inútil, deslocado da realidade e que não ajuda a responder aos problemas que aí estão, que poderá ser treslido e até usado contra o próprio. Sei que devia ter refinado a (auto-)ironia. Sei que devia ter colocado uma advertência no texto do género: cuidado toda semelhança com a realidade é pura coincidência. Sei que devia ter atribuído os créditos devidos ao Espinosa. Mas, como noutras vezes, o texto escreveu-se e impôs-se tal como está… Fica aqui uma amostra:
Chega-se à política. Quando se chega, novo ou velho, não se vem de um estado de natureza, de uma inocente pureza apolítica, e essa chegada não é marcada pela redacção, a partir do zero, de um contrato social de participação política que reescreva tudo o que somos. Chega-se por algumas razões e traz-se determinada atitude. E estas já eram políticas antes de o serem e terão efeitos políticos no trajecto que se siga. Simplesmente, chega-se à política tendo sempre estado nela.
Pode-se chegar à política para se aproveitar dela, pode-se vir para se entregar a esta sem procurar nada em troca. O comum dos mortais trará na bagagem uma mistura em doses diferentes de entrega altruísta e de procura de benefícios materiais ou imateriais, conscientes ou inconscientes. Introduzida uma primeira ressalva óbvia de que não se pode pensar a chegada à política a partir do zero absoluto, introduz-se agora outra, igualmente óbvia, para nos prevenir que não existem categorias fechadas. Mas, apesar de tudo, falemos em cínicos e em ingénuos porque convém.
Para facilitar a tarefa, tomemos, a meio caminho entre a experiência conceptual e a caricatura, o ingénuo enquanto modelo possível do recém-chegado à política. O ingénuo chegará porventura carregado de certezas: as suas escolhas políticas são as melhores por natureza, os seus companheiros os mais abnegados e competentes, a organização em que ingressa é excelsa, o que permitirá abrir o caminho da perfeição social ou, para ingénuos menos ambiciosos, será a via única para uma melhoria substancial da sociedade. Daí que possa reagir por vezes violentamente à crítica que ameace este quadro de perfeição procurando manter um idealismo simples, escapar a qualquer crítica externa ou qualquer dúvida interna.
Acontece que, assim sendo, a posição do ingénuo político é periclitante porque terá de se esquivar permanentemente à crítica e à dúvida. E ou luta com todas as suas forças para ser ingénuo toda a vida política ou pode acabar por se desiludir. Aliás, ouve-se frequentemente dizer por aí que o seu destino é sucumbir aos sucessivos choques da realidade e, desiludido, transformar-se.
O conteúdo completo está aqui.
Eis a frase mais acertada da campanha eleitoral
Dita pelo José Gusmão, deputado bloquista e candidato por Santarém: Para o PS trazer alguma coisa de esquerda à campanha, foi preciso chamar o Fábio Coentrão...

