Lagarde e a moralização da pobreza

Uma das mais hediondas heranças do pensamento cristão para o pensamento capitalista é, sem dúvida, a moralização da pobreza.

Os exemplos estão por todo o lado, das discussões sobre a pobreza de Cristo e a igreja em 'O nome da rosa', de Umberto Eco, até ao (para mim) mais asqueroso tique machista do afastamento ostensivo das mulheres do trabalho em tempos de crise, materializados na blague do João César Monteiro 'Não gastes tudo em freiras...':  são, estritamente, questões de poder.

Se os pobres e as pobres do mundo tomam consciência da sua condição, poderão rebelar-se. Tomarão para si - com a habilidade possível aos excluídos e excluídas - as palavras dos velhos economistas da esquerda; à sua maneira, interpretarão 'as escrituras', porão em causa as clivagens que colocam famílias inteiras como peões no jogo sujo dos grupos económicos que controlam os seus postos de trabalho, os supermercados, os serviços de saúde privados, os seguros.

Este processo de tomada de consciência já é incontrolável por parte dos Estados, dos partidos, das indecentes troikas entre ministros e espiões e televisões, do FMI e da UE, por isso, em desespero de causa, Christine Lagarde vem tentar moralizar a pobreza: pobreza boa, aceitável, preocupante é aquela das crianças ao longo do Niger.

Ainda me lembro de um tempo - que, tristemente, acabou por ser pasto e repasto para a geração de um outro tipo de hipocrisia ao estilo 'The greatest love of all' - em que a pobreza em África sub-sahariana era considerada pornográfica, o espelho menos lisonjeiro da ganância imperialista e capitalista, um exemplo a não ser citado ou usado como termo de comparação em situação alguma, uma desgraça que denunciava todos os países, sem excepção, imperialistas ou não.

Com esta intervenção, Lagarde e o seu bando mostram de onde vem esta ideia de que, para prosperar, será necessário a Portugal e aos outros 'PIIGS' colocar os salários e as políticas laborais ao nível de países como a China. Vem desta moral estigmatizante, humilhante e inaceitável, por parte da Grécia, de Portugal ou seja de quem for.

Leia-se aqui a entrevista de Lagarde ao The Guardian.

2 comentários:

André disse...

E para quem fala em ter que pagar impostos: http://www.toutsurlesimpots.com/exoneration-d-impots-pour-le-salaire-annuel-de-380-989-euros-de-christine-lagarde-au-fmi.html#.T8Ja1UEiB_l.facebook

José Freitas disse...

Este blog tem muito interesse.
Vejam também www.anticolonial21.blogspot.com

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