Pit Bullying: Chafurdar na merda


Em relação a situações como esta em que as pessoas se encontram a chafurdar na merda e quanto mais bracejam, mais se afundam, não me parece nada razoável que se aborde a questão dizendo que a pessoa era demasiado sensível ao cheiro. É precisamente isso que se faz quando se diz que a o visado era "uma pessoa complicada, frágil e reservada". É precisamente isso que se faz quando se propõem "assistir a aulas de colegas para aprender a lidar com as provocações". Como se uma mola no nariz resolvesse o assunto.

O que se deve fazer é limpar a merda. Refiro-me aos imbecis agressores, intocáveis porque "é da idade". Lamento, mas não é da idade. Vários factores conduzirão a um comportamento agressivo mas não é normal, nem natural, nem aceitável, nem inelutável que as crianças sejam umas bestas. Até porque a maioria não o serão. Limpar a merda é intervir de forma eficaz de forma a interromper as agressões presentes e prevenir futuras quer isso implique castigos, quer implique acompanhamento psicológico, quer implique acompanhamento do contexto social. E, nesse sentido, subscrevo o que o Tiago escreveu aqui. A bem das vítimas e dos agressores.

19 comentários:

AP disse...

Essa é boa! Ora é um trabalho difícil pois é. E então? Há tantos outros tão ou mais difíceis e um profissional ou tem as competências para o executar ou não tem. Neste caso o contexto não é desigual. Não falamos da Telecom francesa em que o pólo fragilizado da relação laboral é abusado sistematicamente e encontra-se exposto a esses abusos precisamente pela sua condição de desigualdade.
Aqui é o dia-a-dia de trabalho de muitos milhares de professores e não é diferente de outras profissões desgastantes. Duvido que encontres maior taxa de suicídio nesta classe profissional que em praticamente qualquer outra, e muito menos devido à "exposição permanente a deliquentes".

Diogo Augusto disse...

AP, não sei se a taxa de suicídios ou de stress será mais elevada entre professores do que entre outros profissionais (embora a vox populi vá nesse sentido). De qualquer das formas, a solução não é nivelar por baixo. O que dirias tu se alguém te dissesse que a pessoa X deprimiu ou se suicidou porque era constantemente assediada no local de trabalho? Ela que arranjasse mecanismos para lidar com isso?

Ana Margarida Esteves disse...

O perigo é que há muito boa gente que interpreta o "bullying" como um processo de "higiene social" que elimina os "mais fracos", "os diferentes", "os estranhos", os menos assertivos... Aqui está a mentalidade eugenista, da "selecção natural", a vir ao de cima...

AP disse...

Ora depende não é? Se um polícia é assediado constantemente na cova da moura e se deprime por causa disso alguma coisa não está bem - e não é só com a cova da moura!
Por outro lado, se um trabalhador da France Telecom é selvatica e psicologicamente assediado através das suas condições de trabalho miseráveis, impostas pelo patrão, vivendo numa situação de fragilidade laboral (sublinhe-se) constante, também algo não está bem.
Agora os professores estarão no meio. Faz parte do seu job prescription esse confronto com os alunos. E todos sabem isso. Não é possível ter as criancinhas caladas e atentas por defeito e é necessário lidar com isso, como sempre. Aliás, até já foi bem pior...

Diogo Augusto disse...

Ana Margarida Esteves, não consigo identificar o bullying como um fenómeno tão deliberadamente ideológico. Custa-me a crer que, quem o faz e quem com ele é complacente tenha esse tipo de objectivos.

AP, estás a sobre-simplificar.Não se trata de ter capacidade de manter as "criancinhas caladas e atentas", trata-se de comportamentos que são muito mais graves do que falar com o colega do lado ou do que estar a sala numa balbúrdia. A grande diferença está na agressividade dos comportamentos. E lidar com comportamentos agressivos não deve fazer parte do job prescription dos professores. Embora faça, como é óbvio, parte do job prescription dos agentes de polícia.

Ana Margarida Esteves disse...

Não, Diogo, não acho que quem pratica o "bullying" seja automaticamente defensor de uma visão eugenista da sociedade. O que acontece é que há muito boa gente, quer seja praticante dessa prática vil quer não, que a considera uma forma de "separar o trigo do joio" nas organizações. Há um psicEologo francês que escreveu um livro sobre o "bullying" nas empresas e denunciou práticas de formação de executivos que incluem lições sobre como praticar o "bullying" para se verem mais rapidamente livres de funcionários, sobretudo quando a empresa precisa de fazer cortes nos gastos e despedi-los sem justa causa levaria a terem de lhes dar compensações astronómicas... Isso ou pro somente "não irem com a cara deles"... Há casos de funcionários de empresas que são vítimas de "bullying" por razões tão estúpidas como não gostar de discutir telenovelas com os colegas ou ter afazeres na sexta à noite que lhes impeça de cumprir o ritual hipócrita de ir para os copos com eles, com o objectivo de promover o "team-building"... Embora ache tudo isto horrendo, pergunto-me se não fará parte da natureza humana, se os eugenistas e os darwinistas sociais não terão uma certa razão, se os grupos humanos não terão "mecanismos inconscientes de limpeza social"... Espero bem que não, pois isso seria dar razão aos apologistas do fascismo...

AP disse...

Pois são mais graves: de acordo com o jornal o professor 'Não queria voltar a ouvir que era um "careca", um "gordo" ou um "cão"'.
De facto o grau de severidade desta violência devia levar estes terroristas a tribunal marcial.

Diogo Augusto disse...

Ana Margarida, e considera que esses casos mais "ideológicos" (à falta de melhor termo) são mais ou menos fáceis de lidar do que os outros?

AP, voltas a sobre-simplificar sobre algo que sabes que não é tão simples. A agressividade psicológica já há algum tempo que começou a ser considerada como agressividade digna desse nome e os seus efeitos são bem mais profundos do que o marialvismo que aqui quiseste passar admite.

Diogo Augusto disse...

Aliás, AP, sabes perfeitamente que esse tipo de insultos são direccionados. São agressividade. Não são só mau comportamento.

AP disse...

Claro que são. A indisciplina está mais sofisticada. Mas não passa disso. Indisciplina.
Não me digas que tu próprio não mandaste umas carochadas num gordo qualquer? Estás na fase de redenção não é? eheheheh

AP disse...

E vamos lá a ver. Há casos de violência em algumas escolas (na Belavista por exemplo como ainda agora me disseram).
Mas deverão ser tratados como a excepção que são. E nesse caso, como em qualquer outro caso de violência em outro sítio, com uma queixa policial.
Não tenho problemas com isso.

Diogo Augusto disse...

Certo. Mas isso é violência física. Nós estamos aqui a falar de mais do que isso. Além do mais, o contexto da sala de aula é diferente e ninguém consegue fugir dele, nem professores, nem alunos. Daí merecer um tratamento diferente. É que não é mesmo só indisciplina, é agressão. É uma coisa direccionada. E esse tipo de agressão não pode ser ignorado nem menorizado. Mesmo (ou sobretudo) que não seja recente.

Ana Margarida Esteves disse...

Acho que são até mais difíceis de lidar, por terem a ver com a profunda complexidade da natureza humana, da facilidade com que humanos recorrem a "cliques" e a "bodes espiatórios" para manter a coesão dos seus grupos, e com a facilidade como certos grupos ideológicos usam estes tristes casos para justificar a sua posição essencialista de que o ser humano é "naturalmente" (sic) mau, violento e que as relações sociais são por natureza relações de dominação, o que justifica governos autoritários.

Alexandre disse...

Ó Diogo, a questão aqui é:como podemos nós saber se ele se matou só por causa da turma?pelo que vi ele tinha um quadro clínico de depressão...Obviamente que a situação descrita é angustiante, mas não me parece menos angustiante do que sucede em outras ocupações..Penso que o mediatismo e a forma algo " a quente" como está a ser tratada esta questão carece de alguma razoabilidade, digo eu.

AP disse...

Então pronto: vou tentar não sobre-simplificar e ao mesmo tempo escrever um comentário a um post num blog.
Primeiro, não posso deixar de discordar na consideração deste caso de indisciplina como uma agressão direccionada e que levou o professor ao suicídio. Parece-me um caso isolado e particularmente sui generis.
Extrapolando, não penso também que exista um problema generalizado deste tipo de fenómenos (aquele algo mais que indisciplina que referes) no país.
Ainda assim, assumamos que está em crescimento - a violência psicológica dos alunos sobre os professores. Não será, talvez, um pouco fácil procurar a solução para o problema olhando exclusivamente para a sua manifestação? Mais, sem sequer uma possibilidade de resolução clara pois essa manifestação até é, no mínimo, duvidosa?
Os factores externos, se o fenómeno está em crescimento, serão, óbvia e necessariamente a raiz a estudar: a acefalia curricular; falta de perspectivas dos alunos; desmotivação dos professores; instabilidade laboral; guetização de alunos problemáticos em determinadas escolas; o ensino obrigatório até ao 12º ano a partir de agora, etc, etc...

Seja como for, a agressividade psicológica é, muitas vezes, de maior gravidade que a física. Mas é demonstrada em contextos de relações de poder, não entre pares, e muito menos pelo pólo mais fraco dessa relação.

AP disse...

Então pronto: vou tentar não sobre-simplificar e ao mesmo tempo escrever um comentário a um post num blog.
Primeiro, não posso deixar de discordar na consideração deste caso de indisciplina como uma agressão direccionada e que levou o professor ao suicídio. Parece-me um caso isolado e particularmente sui generis.
Extrapolando, não penso também que exista um problema generalizado deste tipo de fenómenos (aquele algo mais que indisciplina que referes) no país.
Ainda assim, assumamos que está em crescimento - a violência psicológica dos alunos sobre os professores. Não será, talvez, um pouco fácil procurar a solução para o problema olhando exclusivamente para a sua manifestação? Mais, sem sequer uma possibilidade de resolução clara pois essa manifestação até é, no mínimo, duvidosa?
Os factores externos, se o fenómeno está em crescimento, serão, óbvia e necessariamente a raiz a estudar: a acefalia curricular; falta de perspectivas dos alunos; desmotivação dos professores; instabilidade laboral; guetização de alunos problemáticos em determinadas escolas; o ensino obrigatório até ao 12º ano a partir de agora, etc, etc...

Seja como for, a agressividade psicológica é, muitas vezes, de maior gravidade que a física. Mas é demonstrada em contextos de relações de poder, não entre pares, e muito menos pelo pólo mais fraco nessa relação.

Diogo Augusto disse...

AP, http://publico.pt/Sociedade/na-escola-do-professor-que-se-matou-os-casos-de-violencia-sao-constantes_1426893

AP disse...

Porra ainda agora me estavas a insultar encapotadamente de demagógico por andar a transcrever essas coisas e agora meteste-te com isso? Também posso recomeçar...

AP disse...

olha que se lixe:
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-03-2010/especialistas-alertam-que-nao-e-simples-explicar-suicidio-18983270.htm

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