Forquilhas e tochas

Não me parece nada sensato toda a gente estar a atirar-se à garganta do Ricardo Rodrigues sem dizer uma única palavra do comportamento lastimável dos jornalistas tanto na condução da entrevista como na publicação do vídeo tal como está. Uns ao estilo "Nós por cá", outros muito impacientes, outros ainda chateados com comentários do Primeiro Ministro, outros com um sentido de humor muito duvidoso, outros com palas de Alcanena, outros a despejar as munições, outros com muita pena e alguma vergonha, outros espalhafatosos, outros mais artísticos ou com títulos mais abusivos, outros que não conseguem controlar o impulso de fazer referências ao 25 de Abril, outros ainda com piadas rasteiras, (com esta excepção) todos se juntam à milícia de forquilhas e tochas em punho.

Nada sensato porque o fenómeno tem que ser analisado de dois pontos de vista diferentes e toda esta gente está a analisá-lo do mais fácil mas menos interessante e relevante. O roubo dos gravadores é inaceitável, deplorável e essas coisas feias. Já se sabe. Mas essa é uma perspectiva que, politicamente, não nos leva muito longe. Trata-se de um acto isolado de um político que, independentemente de se considerar que tem ou não factores atenuantes, não deixa de ser isso mesmo: um acto isolado. Por outro lado, o comportamento dos jornalistas durante a entrevista e o tratamento que o vídeo teve antes de ser publicado, espelha a forma como nos dias que correm há jornalistas que pensam que a liberdade de imprensa é uma autorização para darem largas à sua imbecilidade. E isso, vindo de um grupo que tem especial poder que não é democraticamente escrutinado, é infinitamente mais preocupante do que a estupidez do deputado.

18 comentários:

Tiago Ribeiro disse...

Não sei onde foste arranjar tanta informação sobre o sucedido e como ela te é suficiente para conclusões tão lapidares. As imagens da entrevista foram editadas mas o contraditório posterior do açoriano não acrescentou nem desmentiu nada dquilo que foi transmitido. As perguntas incidiram sobre processos conhecidos e decisões judiciais, e não sobre aspectos íntimos da vida privada do artista. Embora a pertinência ou boa fé do guião seja discutível não me parece que extravase as tarefas de investigação jornalística sobre titulares de cargos públicos daquele relevo. Os actos isolados podem beneficiar da atenuante da estreia mas não devem ser entendidos como reacção legítima «à imbecilidade». Até porque sim: muito daquilo a que chamas «imbecilidade» deve estar protegido pela liberdade de imprensa. Tal como o açoriano tem mecanismos próprios para a sua defesa - desde a curiosa providência cautelar até ao tempo de antena via declarações públicas ou inclusivamente através de iniciativas legislativas sobre o «jornalismo de sarjeta» - estás lembrado? e que tal? -, o jornalismo também goza do direito a fazer perguntas difíceis e - eventualmente - merdosas. Não me obrigues a vir para a rua gritar 25 de Abril sempre ou o caralho, sim?

Diogo Augusto disse...

Sr. Ribeiro,

Mas a que "tanta informação" te estás tu a referir? Eu construo todo o meu argumento a partir, precisamente, da pouca informação.
Acho que estás a confundir o conteúdo com a forma. Levando a coisa ao absurdo para melhor ilustrar a minha ideia, é diferente "Sr. Primeiro Ministro, confirma a existência de pressões governamentais sobre a linha editorial da TVI?" e "Ó Sócrates, andaste a meter o bedelho nas merdas da Manuela Moura Guedes?". Sendo ambas as perguntas, em termos de conteúdo, perfeitamente legítimas, não as aceitamos de igual bom grado, certo? Mais, a pouca informação disponibilizada não nos permite perceber completamente o contexto do sucedido (mas permite perceber a forma imbecil como a entrevista estava a ser conduzida). Mais ainda, aceito que nada de suficientemente grave se tenha passado para que o Ricardo Rodrigues se tenha passado.

Anônimo disse...

evidente, Tiago, como já tinha sido o Nuno.

Diogo, para além de leres muitos blogs, o que fica comprovado, vê-se que continuas com as prioridades bem definidas. Os jornalistas são infinitamente mais perigosos do que Ricardos Rodrigues. Estes teus dois posts quase merecem uma medalha espalhafatosa.

Renato T.

Diogo Augusto disse...

Renato T., comparei o acto de Ricardo Rodrigues com o comportamento dos jornalistas. Não comparei o Ricardo Rodrigues com os jornalistas. É uma grande diferença.

E fico contente por ter sido promovido ao grupo dos seus amigos (visto no das ex-namoradas não estou certamente)e que me começa a tratar por "tu".

Anônimo disse...

Julgo que o li bem: "nos dias que correm há jornalistas que pensam que a liberdade de imprensa é uma autorização para darem largas à sua imbecilidade. E isso, vindo de um grupo que tem especial poder que não é democraticamente escrutinado, é infinitamente mais preocupante do que a estupidez do deputado".

As minhas desculpas quanto à pessoalidade. Rectificado está a pessoa do trato. Quanto ao resto, caro Diogo, que amargura. Para si não foi namoro?


Renato T.

Diogo Augusto disse...

Renato T., não sei se leu bem. Quando digo "E isso", o "isso" refere-se à forma como alguns jornalistas "pensam que a liberdade de imprensa é uma autorização para darem largas à imbecilidade". Critico um comportamento, não um conjunto de pessoas.

E não são necessárias desculpas, eu até cheguei a partir do princípio que nos poderíamos tratar por "tu", lembra-se? E, se foi namoro, confesso que me senti sempre um pouco usado. Talvez para fazer ciúmes a alguém?...

Frederica Jordão disse...

Talvez o estilo da entrevista seja agressivo - não saberei avaliá-lo na medida em que sempre considero o jornalismo que hoje se faz "de ponta e mola" - mas o argumento da "pressão psicológica" não é admissível 1) porque o sr. Ricardo Rodrigues deveria saber o grau de pressão a que estaria sujeito quando assumiu funções de deputado da nação e 2) porque o gesto - de uma cretinice militante, levado a cabo por um advogado experiente e habitaudo às lides da argumentação - revela um arrojo só entendido dentro da impunidade com que o governo e a sua pandilha tem agido sobre a comunicação social.
Nesta história não há inocentes mas poderá haver mais culpados do que parece à primeira.

Frederica Jordão disse...

E, da mesma forma que não assinei a petição que pretendia a demissão da deputada Inês de Medeiros, não me atiro ao pescoço do deputado Ricardo Rodrigues - estimo aliás que viva uma vida longa e feliz em pleno oceano atlântico com vista para os EUA - mas culpo inteiramente o governo do PS por este e outros dislates (cornudos) que só têm contribuido para tornar a democracia numa anedota (rasca).

Anônimo disse...

Que vergonha de post!

Diogo Augusto disse...

Eu sou assim, não tenho vergonha nenhuma na cara. Veja lá que até assino as porcarias que escrevo!

Anônimo disse...

Insisto mas como acho mesmo que sei ler, sugiro que se leia em voz alta: "E isso, vindo de um grupo que tem especial poder que não é democraticamente escrutinado, é infinitamente mais preocupante do que a estupidez do deputado".

Renato T.

Diogo Augusto disse...

Renato T., parece-me que estamos a patinar e não saímos do mesmo sítio. Eu acho que está claríssimo que comparo um "isso" que se refere a um comportamento e uma "estupidez" que se refere a um acto. Eu sei que pode ser difícil mas, mesmo que a frase lhe suscite - embora eu não veja bem como - outras impressões, sugiro que acredite na minha explicação. É o máximo que posso fazer.

Tiago Vahía Pessoa disse...

Diogo Augusto: concordo consigo.

E até lhe proponho o seguinte exercício. Sem querer estar a desculpar o desvio dos gravadores, sugiro que reveja as imagens disponibilizadas pela Sábado e pelas televisões e me diga, sinceramente !, se é assim tão perceptível e claro que o Deputado leva os gravadores consigo.

Primeiro, não se vê o que está em cima da mesa. Segundo, as imagens do que o Deputado «mete ao bolso» não são, de todo, claras. Podia perfeitamente ter sido um telemóvel, ou um maço de tabaco. Atenção: só falo das imagens, pois Ricardo Rodrigues já admitiu o «furto».

E sugiro-lhe este exercício porquê? Para frisar o seu texto. É que a imbecilidade jornalística também está presente quando as televisões e os jornalistas tentam vender a banha da cobra e fazer crer aos espectadores que aquele vídeo comprova o dito desvio, quando na realidade nada se retira do vídeo.

Lúcia Duarte disse...

caro sr
Parece que, aqui, quem tem óculos de Alcanena é o senhor.
É muito melhor dizer que se errou porque se estava mal, porque não teve descernimento para actuar de outra forma, etc, do que vir dizer que estava a sofrer "pressão psicológica.
O acto foi feio e parece que as atitudes contra os jornalistas já começam a ser comuns dentro do governo. Recorde-se o jornal travestido....
Estranho é, alguém que não estava lá, ter tantos conhecimentos (desmentidos pelo que se viu nas imagens e até nas palavras de ambos os lados).
O pior cego é o que não quer ver: a vontade de calar quem fala contra o governo. Isto já se passou uma vez e durou 48 anos. Quer ver isto de volta?

Tiago Vahía Pessoa disse...

É verdade Lúcia. O acto foi feito, tal como a Lúcia disse. Apenas me referia às imagens.

Diogo Augusto disse...

Tiago Vahía Pessoa, o seu exercício é meramente académico, certo?

Lúcia Duarte, não creio que alguém aqui tenha desculpado os actos do Ricardo Rodrigues.

Tiago Vahía Pessoa disse...

Meramente académico, Diogo Augusto.

Tiago Vahía Pessoa disse...

Refiro-me só e tão só ao famoso vídeo e ao que, de facto, se poderia retirar dele.

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