Sobre o manifesto da liberdade

Não assinei o manifesto “pela liberdade” nem conto desfilar de branco frente à Assembleia da República na próxima quinta-feira. Explico sucintamente sob pena de me confundirem com um agente encapotado do engenheiro ou – pecado capital – um “inimigo da liberdade”. Devo dizer, antes de mais, que acho preocupantes as tentativas de condicionamento da liberdade de que temos ouvido rumores e é uma boa notícia que já se esteja a preparar a hipótese de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o assunto. Por outro lado, não é pelo facto do evento ser protagonizado grosso modo pelo povo da direita que me abstenho de assinar. Admito o princípio da táctica; tento é não confundi-la com a ideia de que o inimigo do meu inimigo, meu amigo é.

A verdade é que esta movimentação tem uma leitura do tema, por um lado, e uma intencionalidade política, por outro, que não são as minhas. Em primeiro lugar, os problemas que o assunto convoca – as fronteiras entre o poder judicial e o poder político, as relações entre o Estado e a comunicação social e o condicionamento actual da informação – parecem-me deficientemente abordados. Ainda que algumas formulações do texto me sejam simpáticas, perpassa nele uma vontade de investir Cavaco do papel de defensor das liberdades que depois do episódio Fernando Lima só nos devia fazer rir. Em segundo lugar, e não obstante o tom solene e consensualizado do “apelo à liberdade”, temo que a esquerda esteja não tanto a atacar o nosso Berlusconi “caseiro” – figura que agradará, suponho, a muitos dos “assinantes” da petição – mas a alimentar a ideia de que o que precisamos é de alguém que “venha pôr ordem nisto”. Um Berlusconi anti-Berlusconi para depois de amanhã.

24 comentários:

miguel serras pereira disse...

Caro Miguel Cardina,
concordo consigo no fundamental.
Retomo o que tenho argumentado contra este apelo/convocatória nas caixas de comentários dos posts da Joana Lopes no Brumas e do Tiago Mota Saraiva no 5dias (http://5dias.net/2010/02/08/respeitinho/#comments ):

1 ." acho que a liberdade jornalística não se defende bem marchando ao lado dos que legitimam sua subordinação política aos grupos económicos que possuem os jornais, aos direitos de propriedade, etc., etc. Cf. o que escrevi acima e na caixa de comentários do post da Joana Lopes.(http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2010/02/perdoai-lhes-porque-nao-sabem-o-que.html )
Não sou contra todas as alianças tácticas e plataformas políticas. Acho que esta aliança, para quem defende a extensão das liberdades democráticas e a democratização radical das instituições, distorce os princípios correspondentes aos dois objectivos. E que é esse o sentido político da inconsistência lógica dos considerandos do apelo".

2."O governo do Sócrates merece cair por muitas razões. E o apelo omite muitas das principais: se esse silenciamento é o preço da unidade da acção, receio que seja o branqueamento antecipado de um próximo governo “de verdade”, e das suas previsíveis tentativas de berlusconização do regime por via presidencial ou “mista” (coligação da Presidência e forças político-partidárias eventualmente recombinadas), e de “limitação económica” agravada dos direitos sociais e liberdades".

3. Na caixa de comentários do 5dias, o Viana escreveu também o seguinte, na mesma ordem de ideias:
"Espanta-me ver pessoas que escrevem neste blogue a apoiarem o “manifesto pela liberdade de expressão”. A linguagem deste é claramente conservadora, misturando liberdade de imprensa (i.e. para criar empresas privadas de comunicação social) com liberdade de expressão, apelando a “orgãos de soberania” que assumam as suas competências, associando a “degradação da vida democrática” com o não “regular funcionamento das instituições”, e acabando com o grito de guerra: Liberdade!… Espanta-me ver pessoas de Esquerda que querem tanto que Sócrates “desapareça”, seja por simples ódio ou oposição política, que não vêem que se a carreira de Sócrates terminar devido a estes escândalos sócio-mediáticos, e não devido ao impacto social da sua política económica neo-liberal, quem acabará por beneficiar disso é a Direita, e não a Esquerda. A Direita está muito preocupada com o apelo do “populismo de Esquerda”, que vai crescer ainda mais à medida que a crise sócio-económica se aprofundar nos próximos anos. Precisa por isso de um “populismo de Direita” que lhe faça frente. O edifício ainda não está de pé, mas os alicerces estão a começar a ser construídos: (1) apelo ao governo pelos impolutos, os tecnocratas; (2) o aparecimento de organizações fortemente conservadoras do ponto de vista social, capazes de mobilizar dezenas de milhares de membros; (3) a definição do culpado – os imigrantes, os homossexuais, os recipientes do rendimento social de inserção.
Raramente deu bons resultados subalternizar a estratégia à táctica…"

4. Apoiando este comentário do Viana, escrevi eu:
"Nem mais nem menos: era isso que eu deveria ter escrito quando digo que a inconsistência lógica do apelo é o seu sentido político. Se quiser e tiver tempo para fazer um contra-apelo – ou uma declaração – na base desses considerandos, quero ser subscritor".

Saudações democráticas

miguel serras pereira

Madalena Duarte disse...

Concordo Miguel, por isso o tom irónico do meu post. Até concordo com o principio, mas não com a agenda por trás do manifesto. Este manifesto surgiria com os mesmos subscritores na altura do governo do Cavaco? E com a mesma redacção?

Miguel Cardina disse...

Ora bem, Madalena. E ainda bem que abriste caminhos. Estou a ver uma unanimidade preocupante em torno do tema. Como se o facto de não se gostar do Sócrates - e de se achar preocupante e a exigir esclarecimentos os rumores de interferência na comunicação social -bastasse para desfilarmos de braço dado com a direita apelando à "liberdade".

Miguel Cardina disse...

Caro Miguel Serras Pereira,
Tenho acompanhado as discussões também nas caixas de comentários. Gostei particularmente do que disse, bem como do comentário do Viana. Imaginar-me na rua, vestido de branco, com os adeptos do cavaquismo e os órfãos da direita organizada, a apelar à "liberdade" também me parece um caminhos que mais rapidamente leva a um "populismo de direita" do que a um aprofundamento da democracia.

miguel serras pereira disse...

Car@s Madalena e Miguel,
façamos/abramos então um pouco mais de caminho juntos. A Joana Lopes trouxe-me para esta luta com o post do Brumas de ontem. Embora tentarmos nós, como cantava o Zeca, trazer outros amigos também?
Abraço
msp

Anônimo disse...

Se o mesmo texto e a mesma iniciativa fossem propostas pelo Daniel Oliveira e pelo Manuel Alegre a tua posição seria outra?

Pelo andar da carruagem começo a deixar de ter que te ler para saber o que pensas... Basta ler o Arrastão.

Abraço

Renato Teixeira

Frederica Jordão disse...

O curioso deste manifesto é que, vindo de quem vem, está a ter a capacidade de espicaçar os "sectários" (vide http://5dias.net/2010/02/09/compagnons-de-route-ii/ por Renato Teixeira) no sentido de tomar posições fulanizadas na pessoa do PM, quando isso à apenas a ponta do iceberg. É aquele velho tique de criar situações para empurrar a esquerda... O exemplo mais recente é o anúncio da candidatura Alegre, mas adiante...
Eu confesso que tenho muita dificuldade em levar certas coisas a sério: o episódio Mário Crespo seria apenas anedótico se não fosse perverso por conter uma agenda que fica muito aquém e, ao mesmo tempo, além dos seus enunciados.
A legitimidade do Governo, como bem indica Miguel Serras Pereira, está bem à vista, mas ainda ninguém pediu abertamente a sua demissão, o que indica que a mensagem da estabilidade chegou ao seu destino ou que, por outro lado, a agenda em vigor ainda é a de Cavaco Silva.

Frederica Jordão disse...

E não esquecer a intervenção de Paulo Rangel na Comissão Europeia! O que me dizem a isso?

Miguel Cardina disse...

Renato,
Não tem nada a ver com quem propõe como digo no post, ainda que isso não me seja de todo indiferente. Tem a ver com a agenda e com a intencionalidade política de uma coisa dessas. Nunca te imaginei a gritar pela liberdade abraçado ao Mário Crespo só porque ambos não gostam do Sócrates. Há convergências tácticas e convergências tácticas... registo que para ti é mais natural encarar Cavaco como o garante da liberdade do que entender Alegre como uma possibilidade de fazer crescer o campo da esquerda. Quanto à tua última frase, é um bocadinho de mau gosto. Mas se te facilita a vida arrumares as coisas por prateleiras, força. Acabei de ser crismado como "malandro social-democrata", é isso? OK, arrivederci.

Anônimo disse...

Miguel, quais são as intenções de Alegre senão dar suporte ao seu partido de sempre? Isso já não te incomoda? E as intenções de Jorge Coelho, Sócrates e companhia limitada? O que os leva a apoiar Alegre?

Leste o meu post sobre o Crespo? Devias antes de declarar que eu ando aos abraços com tais figuras. Ao que sei a manif não é de apoio ao Crespo. É para acusar o Governo de ingerência. Achas mal? É pena.

Quanto a crismas cada um tem o seu, a Fred já me deu o meu: sectário. Acusação curiosa quando dada neste tema... muito curiosa.

Abraço aos dois,

Renato

Frederica Jordão disse...

Renato, que confusão! Peguei na tua definição de sectário para subscrever as razões para não alinhar com os libertários do 31. Não alinharia nunca porque a agenda deles não me vai! Só não quero é ser empurrada para alinhar num conluio que é velho e que irá redundar em mais do mesmo no que diz respeito à liberdade de imprensa, se não se transformar mesmo na rentrée política do Cavaco! A sectária aqui sou eu, veja-se.

Miguel Cardina disse...

A Joana Lopes meteu aqui um post que assinaria por baixo:
http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2010/02/um-manifesto-e-uma-manifestacao.html

Frederica Jordão disse...

E sobre o Alegre, nem penso que ele seja uma arma forte do PS, uma novidade ou uma solução muito inteligente. Peço desculpa pelo cinismo mas a candidatura de Alegre parece-me apenas uma panaceia para as perdas do partido à esquerda depois da debacle de Soares frente ao épico inimigo e que, mais uma vez, quer levar o resto da esquerda de arrastão (sem duplo sentido, juro).

Miguel Cardina disse...

E para gaúdio do Renato, também assinaria por baixo este:
http://arrastao.org/sem-categoria/nos-somos-um-rio-que-nao-vai-parar/

(e vem a propósito do que dizes, Frederica, porque não acho de todo que a questão presidencial esteja fora dos cálculos políticos de quem promove este manifesto/manifestação).

Jorge Conceição disse...

Ora aqui está o "busílis" inconfesso da questão da pseudo manif pró-liberdades! É bom que se comecem a pôr a nu as vontades camufladas! A curta história "pós 25 d'Abril" já nos devia ter deixado alertas suficientes para que não caíssemos na primeira esparrela que nos põem, mesmo que apelidada de democrática. Também a manifestação de Setembro de 1974 era "democrática", pois provinha duma "maioria silenciosa"...

Anônimo disse...

Fred, não há confusão nenhuma. A questão é fazer a distinção entre o que deve ser feito com aqueles que discordamos e o que não deve.

Estivemos todos (incluindo o Miguel agora) envolvidos na luta contra as propinas, inseridos em movimentos académicos pejados de gentinha de direita, catolicos, entre outras familias politicas com as quais nao concordavamos. Quando votavamos uma manif ou uma greve sabiamos que ela ia ser aproveitada por um qualquer cacique de ocasião, fosse para se promover fosse para lixar a luta. Em coerencia com o que dizem arrependem-se de cada vez que vieram com eles a terreiro.
É isso? Percebi bem?


Concordo com tudo o que a Fred diz sobre o Alegre e subscrevo, para gaudio do miguel.

Abreijos aos dois,

Renato.

Miguel Cardina disse...

Renato,

Análise concreta da situação concreta. Por acaso não me lembro de muita gente a afirmar-se claramente de direita lá pelas lutas estudantis, mas é possível. Se lutaria lado a lado com eles por causas que acreditasse? Claro!

Mas confesso-me surpreendido com a ingenuidade de alguma esquerda que é capaz de gastar horas a falar da dialéctica entre a táctica e a estratégia, a elocubrar imensamente sobre princípios, traições e desvios, a recusar dar um passo à frente sob pena de dar logo de seguida dois atrás e... à primeira casca de banana colocada pela direita vai logo testar a resistência do solo.

É que podem assinar o mesmo manifesto, irem todos de branco e gritarem a mesmo palavra "liberdade". Mas a tua será radicalmente diferente da de quem te estará lá a acompanhar. A esse respeito concordo em pleno com o que foi dito já no 5 Dias pelo Ricardo Noronha e pelo Miguel Serras Pereira. E sabes que assim é, quanto mais não seja porque conheces o campo do jornalismo muito bem...

Acho que ninguém verdadeiramente está preocupado em discutir a liberdade, os seus limites, o jornalismo que temos e a relação entre o poder político e a comunicação social. É simplesmente uma coligação anti-Sócrates. Nada a opor, parece um objectivo mertitório. Só acho é que vais muito mal acompanhado. E os efeitos da coisa parecem-me que se inclinam mais para alimentar o papel de Cavaco como garante da liberdade (Cavaco!) e, em última análise, apelar a um populismo autoritário (alguém que venha pôr isto na ordem) do que em ampliar a democracia e a liberdade.

Tens mesmo a certeza de que as mesmas palavras querem dizer as mesmas coisas?

Anônimo disse...

Bem... ia linkar a resposta mas a vossa caixa de comentários não permite copy-paste. Sugiro que por tal continuemos na outra tasca: www.5dias.net
Abraço

Renato T

AP disse...

O inimigo do meu inimigo meu amigo é. E à pala disso defende-se tudo. Sem análise nenhuma a não ser a das tripas. É um clássico e a CIA sempre os usou para isso (provocação). Nesta ideia, não me esqueço do apoio de alguns, por exemplo, ao major Reynado em Timor, quando este deliquente a tempo inteiro, formado nas escolas da Austrália e perito na desorganização social, foi considerado um combatente da liberdade e libertador do povo oprimido. Simplesmente porque estava "contra" (o que quer que isso queira dizer) a fretilin de Alkatiri.
Vale tudo.

Anônimo disse...

AP, acho que pintei um mural com o Miguel Cardina(podes confirmar?) a defender armas para timor e liberdade para Xanana... Foi errado à luz do opressor que este se tornou para o povo timorense?

Renato T.

Miguel Cardina disse...

Não me lembro de pintar isso, mas é possível. Lembro-me da discussão. Penso que o AP está a levantar outro tema: qualquer inimigo do nosso inimigo é nosso amigo? O exemplo do major Reynado é bom, e podíamos alargá-lo ao contexto asiático e do médio-oriente. Por exemplo: os fundamentalistas islâmicos são potenciais aliados porque também são contra o imperialismo americano?

AP disse...

Vou até um pouco mais longe Miguel: o meu problema é a falta de ponderação proveniente de pensar a acção com as tripas e não com o cérebro. Apoiar o Xanana quando nada previa o seu futuro... familiar vá, é perfeitamente compreensível. Eu próprio defendi alguns belos crápulas quando ainda estavam dentro da validade. Não nos é pedido para ser bruxos. Agora personagens como o Reynado, para manter o exemplo (ou alguns fundamentalistas islâmicos como diz o Miguel), nunca foram senão, no mínimo, indefensáveis. Desde o início, insisto.

Anônimo disse...

Miguel, absolutamente. A resistência islamica é neste momento quem mais resiste ao imperialismo americano. Do Hamas ao Hezbolah na Palestina e no Libano, mas também no Afeganistão e no Iraque (Estão a fazer daquilo novo Vietname). De resto, o insuspeito George Galloway marchou nas ruas de londres a defender a vitoria do Hezbolah.

Sabe quem sabe que na luta politica não há meios que isso não significa apoiar politicamente essas organizações mas nesse, como em quase todas as questões, sei escolher um dos lados em conflito.

No meio, apanha-se tiros dos dois lados.

Estou de resto a dotar-me de ferramentas políticas para dar esse debate com a profundidade que ele merece.

Qual é a tua alternativa? ONU para esses sítios?
Paz, amor e preservativos?

Renato T.

Anônimo disse...

Uma solução para isto é evidentemente apoiar forças progressistas que intervenham nestes países. O caso do Paquistão neste caso é lapidar. Como lidar com um Estado Autoritário e com a importância crescente do fundamentalismo islâmico, que não é apenas um movimento político, mas uma importantissima rede social que se substitui ao Estado?

É o que diz o Labour Party Pakistan que, diga-se de passagem, teve mais militantes mortos pelo fundamentalismo do que pela repressão governamental. Não é portanto preciso uma ingerência da ONU para combater o imperialismo, nem apoiar os fundamentalistas para fazer erodir à escala nacional a ingerência nesses países. Existem outras alternativas...

Aqui vai o link de um texto do LPP com a sua estratégia:

http://www.internationalviewpoint.org/spip.php?article1666

Hugo Dias

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