3000 centenas contra o PEC

Andava o país assustado com a probabilidade de se afundar numa crise papona quando o primeiro ministro, em Agosto passado, nos tranquilizou:

«Com este resultado, Portugal sai tecnicamente da recessão económica em que se encontrava. Portugal é aliás um dos poucos países europeus que sai da recessão técnica enquanto o conjunto dos países europeus continua em recessão».

A confirmar este optimismo, veio recentemente a ministra Helena André anunciar o definitivo fim da crise:
«Não vai haver retirada de proteção social aos portugueses. Vamos sim voltar ao que estava em vigor antes das medidas extraordinárias».

As medidas extraordinárias eram aquelas que procuravam suavizar o impacto da crise em que «quase» mergulhámos. Se elas são dispensáveis é lícito pensarmos não só que a crise é já coisa do passado como também que os dias que se avizinham serão de prosperidade económica e de quase pleno emprego.

E por isso só com naturalidade se poderia ouvir o Governo anunciar que a partir de 1 de Julho começaríamos a ser roubadas e roubados à razão de 151 milhões de euros: acabará o prolongamento do subsídio social de desemprego por mais seis meses, a majoração em 10 por cento do valor do subsídio pago aos desempregados com filhos a cargo, assim como a redução do tempo mínimo de descontos necessário para ter direito ao subsídio. Além disso acabam também os apoios extra às empresas em lay off e a redução das contribuições pagas pelo micro e pequenos empresários por cada trabalhador com mais de 45 anos de idade.

Tem pois razão a ministra do trabalho em desvalorizar a manifestação de sábado passado, que trouxe para a rua algumas centenas de pessoas (3000 centenas, se as contas não me falham), e para pedir «mais concertação e menos contestação».

Acontece que aquilo que trouxe as pessoas para a rua foi a necessidade de derrotar o PEC e não de o negociar.

O governo e o PSD insistem na ideia de que «todos estão a fazer sacrifícios». Mas isso não passa de propaganda. E é neste fandango que tentam levar-nos a todas e todos e por isso apelam à concertação e emagrecem a contestação. A primeira ideia a derrotar é, por isso, essa mesma porque, na verdade, a crise está a ser paga pelos mesmos de sempre e não por todos. A crise está e continuará a ser paga pelos sacrifícios daqueles e daquelas que já não se podem sacrificar mais, enquanto aqueles que nos meteram na crise permanecem na sua vidinha de privilégio e corrupção como se não fosse nada com eles: o governo retirou as Ilhas Caimão da lista dos maus offshores para que o dinheiro proveniente da Madeira continue a ter entreposto; prometeu o fim dos bónus nas empresas com participação pública mas a proposta nem a votação chegou dada a ira provocada nos visados; a banca continua a pagar cerca de 10% de IRC.

Ao invés, os rendimentos do trabalho vão ser duplamente penalizados através do aumento do IRS e do IVA; o suposto aumento do IRC eclipsar-se-á pela relação entre taxas legais e taxas efectivas; e o proporção entre o esforço fiscal pedido àqueles que mais têm e aos que têm pago todas as crises onde os que mais têm nos têm metido é ofensiva. A política de «por cada duas pessoas que se reformam só entra uma» na Função Pública originará a degradação e desagregação de muitos serviços públicos que servem precisamente aqueles que menos têm e a quem tudo é pedido. E até a medida de diminuição de 5% nos salários dos políticos e dos gestores é quase inócua porque só abrange o sector público, deixando de fora as empresas participadas pelo Estado. Enquanto os salários reais dos trabalhadores e trabalhadoras diminuem, Ferreira de Oliveira, da Galp, continuará a arrecadar 1.5 milhões; Paulo Azevedo, da Sonae, 1.1 milhões; António Mexia, da EDP, 3.1 milhões; Zeinal Bava, da PT, 2.5 milhões; Rodrigo Costa, da Zon, 1.5 milhões; Ricardo Salgado, do BES, 1 milhão.

Por isso, enquanto a taxa de IRC da banca não subir, os bónus e as transferências para offshores não forem taxados, a banca pública não abandonar ela própria a política especulativa e as grandes fortunas não forem taxadas para financiarem a segurança social eu não só não estou disponível para mais sacrifícios como recusarei e denunciarei esse embuste que afirma que «todos estão a fazer sacrifícios».

Uma fisga e berlindes

A contra-propaganda de Israel já está em marcha, mas podiam forjar melhores provas. Pelas imagens, do arsenal de armas do Mavi Marmara, consta uma fisga, sacas de berlindes e cabos de vassoura. Os pobres comandos Israelitas, totalmente desprovidos de capacidades para lidar com armamento tão sofisticado, tiveram mesmo que disparar e matar 9 pessoas. Vergonha absoluta.

"Surpreende que surpreenda..."


É lamentável - mas já não devia surpreender - o tratamento dado pela imprensa online à Manifestação convocada pela CGTP para o Sábado passado, dia 29 de Maio.

O Jornal de Notícias e o i limitaram-se a usar o telegrama da Lusa que dava conta da presença de "centenas" de manifestantes no arranque, no Marquês de Pombal. Ficamos, contudo, a saber que os artigos obedecem ao novo acordo ortográfico o que, no contexto actual, faz toda a diferença.

O Diário de Notícias lá se esforçou por acompanhar minimamente a manifestação, com uma espécie de "twits" ao minuto.

O Público, esse, acompanhou a manifestação e empenhou-se em desacreditar os números da CGTP, colocando a tónica do artigo na questão que envolve as duas intersindicais, desviando totalmente as atenções do impacto que a manifestação teve para a luta dos trabalhadores que assim se iniciou.

Já não se lhes pede grande coisa, apenas que estejam lá e que sejam imparciais... Na sua qualidade de trabalhadores e trabalhadoras, esperava-se um pouco mais de solidariedade mas parece que a liberdade de imprensa tem destas modas: "todos me calam, eu calo alguém..."

João Proença, o apartidário

O Secretário-Geral da UGT podia esgrimir todos os argumentos que quisesse contra a Manifestação de Sábado, menos o que utilizou - o da instrumentalização político-partidária.

Este é o discurso de um governante e não de um sindicalista. O papel do primeiro é o de menorizar a mobilização. Existem três tipos de estratégia, por ordem crescente de importância: 1) a guerra de números, alegando que esta não foi significativa; 2) a descredibilização das motivações da manifestação, enfatizando a insensatez desta, a inevitabilidade das medidas tomadas, o supremo interesse nacional que se sobrepõe a expressões particularistas de protesto; 3) por fim - e isto normalmente só acontece quando a manifestação é mesmo grande - a instrumentalização político-partidária.

O Sindicalista João Proença deveria ter explicitado as razões pelas quais a UGT não aderiu ao protesto, a sua predisposição para a "negociação e concertação" e o seu horror à mobilização colectiva, e não esgrimido o fantasma da instrumentalização. É certo e sabido que existe uma ligação estreita entre sindicatos e partidos políticos em Portugal, relação essa muitas vezes problemática e perniciosa. Mas a UGT não escapa a isto. A sua fundação é feita contra a CGTP (e a hegemonia comunista) por um acordo expresso entre PS e PSD, o Movimento Autónomo de Intervenção Sindical - Carta Aberta. O Secretário Geral da UGT é membro inerente da Comissão Política Nacional do PS, e foi cabeça de lista à Assembleia Municipal de Cascais pelo PS nas últimas eleições autárquicas.

Então sobre autonomias estamos conversados. Neste caso concreto, resta perguntar: João Proença foi a voz dos trabalhadores que representa, ou a voz do Partido do Governo?

A Minoria foi à Manif

A Minoria Relativa fez-se representar na Grandiosa Manifestação (até porque o cartaz do Rock in Rio não valia os guizos de um gato e mesmo assim apanhou 88 mil inimigos do povo) pelos seus colaboradores mais amigos do reviralho e de bifanas. Quem não os viu, que os visse, porque eu não vou revelar os nomes de Hugo Dias, Frederica Jordão, Andrea Peniche e Luís Branco. As pessoas de bem, como eu e, eventualmente, Cátia Guerra, mais atentas ao sentido vanguardista das coisas, foram para aqui militar por causas nobres, não sem o devido peso na consciência (Cátia Guerra pela falha cívica e eu pela irresponsabilidade laboral). Feitas as contas à vida, resta-me apenas dizer que ainda não me decidi entre a timidez simpática e docinha da cidade (1)...

... e as meninas rudes do campo, com tanto de cabras como de génio (2):

(1) Mariana Ricardo
(2) Scout Niblett
Fotografias de Rui Chaves

Cohn Bendit no PE sobre a (nao) ajuda economica à Grécia.


A ouvir!!

Nota: estou a escrever de um teclado sem acentos.

Chico Buarque indignado com Sócrates



Chico Buarque ficou indignado ao saber que a imprensa nacional publicara a notícia de que teria sido o cantor a pedir a Lula da Silva para conhecer José Sócrates. "Foi o vosso ministro quem pediu o encontro. Aliás, nem faria muito sentido eu pedir um encontro e o primeiro-ministro vir ter à minha casa", disse o músico e escritor brasileiro ao Público, através de correio electrónico.

SimPortugal


Nos idos tempos em que os computadores eram máquinas muito pouco acessíveis e serviam, essencialmente, para jogar, havia um jogo que me agradava particularmente: o Simcity. Construíam-se edifícios, estradas, fábricas, aeroportos, centros comerciais, habitações... As pessoas iam começando a habitar a cidade e nós, contentíssimos pelo dinheiro que ganhávamos em impostos, lá lhe dávamos mais centros comerciais, fábricas, esquadras de polícia e quartéis de bombeiros. Havia, no entanto, um problema. De vez em quando lá vinha um tornado ou um monstro verde que arrasavam parte da cidade. Face à catástrofe e à necessidade de reconstruir a cidade, lá se iam aumentando os impostos para ter receita suficiente para fazer tudo o que era preciso. Mas os habitantes da nossa cidade não estavam pelos ajustes e, se aumentássemos os impostos, iam-se embora e as receitas acabavam por cair. Por outro lado, se baixássemos os impostos, as pessoas voltavam mas pagavam tão pouco de impostos que o dinheiro que recebíamos não era suficiente para para reconstruir a cidade. Que dilema!

Felizmente, os habitantes das nossas cidades simuladas eram uns papalvos e caíam sempre num truque. Podíamos manter os impostos baixíssimos durante todo o ano par atrair mais gente e depois, em Dezembro, zás!, lá disparava o valor dos impostos, arrecadavam-se umas boas massas e, em Janeiro, voltávamos a baixá-los. Era certinho! Caíam sempre que nem patos.

É pena que os portugueses não sejam tão papalvos como os habitantes do Simcity, não é?

Guia Eleitoral 2010

O PCP pensa ou faz X. É porque estão parados no tempo, agarrados a um passado sangrento cuja existência recusam aceitar.

O Bloco pensa ou faz Y. É porque estão a fazer uma jogada de oportunismo político para implodir com o PS. Além do mais, dizem que defendem os pobres e oprimidos mas são todos filhinhos de papás, comem caviar e mais não sei o quê.

Troquem as incógnitas por qualquer coisa e têm um comentário político à la minuta.

A Minoria vai à Manif

Legenda 1: a Minoria Relativa na linha da frente das cenas. Faz e acontece.
Legenda 2: A Andrea Peniche é esta senhora da esquerda, de malinha, acabadinha de sair da cabeleireira Lisette, ali no Senhor Roubado.

corninhos de fora

28 de Maio de 1926. Nada melhor para assinalar uma data de triste memória do que lembrarem-nos as razões porque a detestamos.

O recém criado Movimento Assembleia, que congrega nacionalistas e salazaristas, escolhe hoje o seu líder. A necessidade de «promover a unidade moral e estabelecer a ordem jurídica», a afirmação do trabalho como «um dever de solidariedade nacional», a aceitação do trabalho "estrangeiro" em empresas portuguesas apenas e só nos casos «em que se verifique ser impossível encontrar entre os nacionais os activos competentes», a consideração da família como «realidade primária e fundamental de toda a orgânica nacional, de onde parte toda a ordem política e social da Nação», a proposta de que o Presidente da República seja «nomeado pelo Governo» e de que o Conselho de Ministros seja «designado por um colégio eleitoral, que avaliará as funções do Governo através de eleições livres» e a redução do Parlamento a «uma câmara dos deputados, órgão consultivo do Governo com redução do número de elementos confinados às especificidades dos diversos ministérios» são as propostas com que se apresentam ao país.

Em tempos de crise a extrema-direita costuma meter os corninhos de fora e semear para colher. Pena é que o senhor Paulo Portas, que já cá anda há tanto tempo, tenha que levar com estas deslealdades.

E na cama fazem maravilhas


Demoagogia contra a demagogia (fight fire with fire)

Já cá faltava. O povinho já há muito que a sabia toda. Falta dinheiro, reduza-se o número de deputados na AR. Até os jovens, sempre modernaços e p'rá frentex, na última edição do Parlamento dos Jovens, se insurgiram contra o número de deputados da AR depois de, na penúltima edição terem aprovado uma progressiva recomendação para obrigar os mandriões dos que recebem o RSI e dos que recebem subsídio de desemprego a "retribuir essas prestações à comunidade".

Agora, Mota Amaral, no encalço do mui brilhante e sempre atento Medina Carreira vem propor a redução do número de deputados na AR. A esperteza é epicamente saloia. Se a democracia custa muito dinheiro, temos bom remédio. Os custos que isso traz e que não são ignorados por Mota Amaral são secundários. 230 são muitos. Aliás, para fazer aquele trabalho, mais vale 10 muito bons, não é? Afinal, ser de Esquerda ou de Direita, do litoral ou do centro, do Sul ou do Norte, do continente ou das ilhas, pouco importa. Afinal vivemos ou não numa meritocracia?

E a próxima machadada, fica aqui prometido, é nas eleições. O dinheiro que se gasta naquela fantochada é astronómico. E que tal se for só de 10 em 10 anos? E se elegêssemos uma pessoa que depois nomeava os outros todos? E se não elegêssemos essa pessoa? Podia ser, por exemplo, o gestor a sair com melhor média de uma qualquer universidade...

Medidas contra a crise da qual já tinhamos saído mas que afinal estamos a viver mas da qual vamos sair apesar de nunca termos saído dela

Impressionante...O "plano anti crise" lançado em finais de 2008 já só tinha tido uma taxa de execução inferior a 50% e, portanto, um alcance e resultados muito áquem dos necessários, apesar dos constantes efeitos de anúncio. Agora, poucos meses depois da "entrada em vigor" da Iniciativa Emprego 2010..BAM..oito medidas vão por água abaixo. Depois de discursos enflamados por parte do Governo sobre a sua veia social com, por exemplo, o prolongamento por seis meses do subsídio social de desemprego, a redução do tempo de trabalho necessário para poder aceder ao subsídio de desemprego, bla, bla, bla, eis que a Ministra anuncia...

Vamos voltar ao que estava em vigor antes das medidas extraordinárias

O programa "Qualificação Emprego" e o prolongamento por seis meses do subsídio social de desemprego são alguns dos apoios que o Governo deixa cair, entre as oito medidas da Iniciativa Emprego 2010 que vão terminar.

Serão cortadas ainda medidas como o apoio de redução do prazo de garantia para atribuição do subsídio de desemprego, a majoração do montante do subsídio de desemprego aos desempregados com filhos a cargo e o pagamento adicional de abono de família dos terceiro ao quinto escalões.

O Governo põe termo ainda ao incentivo de redução em três pontos percentuais das contribuições para a segurança social a cargo do empregador, em micro e pequenas empresas, para trabalhadores com mais de 45 anos.

O programa de requalificação de cinco mil jovens licenciados em áreas de baixa empregabilidade vai terminar, bem como o reforço da linha de crédito específica e bonificada, tendo em vista apoiar a criação de empresas por parte de desempregados.


Ora bem, leiga ´nestas matérias já me confessei mas deixem -me só ver se entendi: temos uma taxa de desemprego com dois dígitos, sendo que a dos jovens é o dobro, um índice de pobreza perto dos 20%, sendo que para além destes valores não podemos esquecer que são muitos/as os/as que se encontram mesmo no limiar; temos um salário médio de cerca de 680 euros (uma fortuna portanto que nos dá um poder de compra invejável), mmhh...mmmhh... Ah! temos o PEC (ou PE) e tivemos agora há pouco as medidas adicionais de austeridade que basicamente cortam a eito em tudo, ou quase, o que é susbídio, aumenta impostos , investimento nem vê-lo, e essas coisas.

Ok, e agora , expliquem me lá como se eu fosse MUITO BURRA: como é que é suposto com estas medidas e este rumo de governação Crescermos? Dinamizarmos a nossa Economia e o Mercado de Trabalho? Não aumentarmos dramaticamente e antes Baixarmos os níveis de desemprego e Pobreza? Não batermos no fundo?

Obrigada.

Ainda o CPMS

Mudará as vidas de uns mais do que as de outras, não mudará a vida da maioria, não altera por si uma relação de forças, e aprovar normas discriminatórias junto com avanços formais é contraproducente. Mas parece que denunciá-lo é que é ser estúpido, e será excluirmo-nos de uma “Vitória” tão “limpa” que nem se admite que é contraditória.

A Andrea, colega aqui do requintado espaço, indicou-mo e é, de facto, imprescindível a leitura do post de Sérgio Vitorino. Clarinho mais clarinho não podia ser. E é tão bom que até se lhe perdoa uma utilização da palavra "bitola" e uma utilização de um "lol".

Entre marido e mulher alguém meta a colher

Os dados do Conselho da Europa indicam que 12 a 15% das raparigas com mais de 16 anos passam por situações de abusos nas relações amorosas.
O estudo sobre violência física e psicológica em namoro heterossexual, desenvolvido pela Universidade do Minho, diz-nos que um em cada quatro jovens é vítima de violência no namoro, revelando que existe tanta violência no namoro entre jovens dos 15 aos 25 anos como no casamento.

Este estudo revela também que os e as jovens têm uma percepção errada da violência no namoro, chegando mesmo a tolerar a violência sexual, que não é percebida sequer como violência e muito menos como crime.

«Só fez aquilo porque estava descontrolado, perdeu a cabeça».

«O descontrolo é porque tem medo de a perder. Não é violência».

«A violência sexual no namoro não existe. Agora, relações sexuais forçadas já são outra coisa».

«Se eles namoram, não acho que seja violência sexual».

Das vítimas registadas neste estudo (cuja amostra é constituída por um total de 4730 jovens, dos quais 58% são raparigas e 42% são rapazes), 20% sofreram violência emocional (insultos, ameaças, pressão psicológica e coerção) e 14% agressão física; 30% admitiram ter agredido o parceiro, sendo 23% agressão física, 18% emocional e 3% física severa.

O estudo da UMAR, de que hoje a imprensa dá conta (e aqui), confirma e reforça este cenário preocupante.

Há muitos mitos a destruir e eles são muito semelhantes ao que se encontram nas relações de intimidade adulta: o ciúme é uma prova de amor, a violência tem tendência a terminar quando as pessoas se casam ou passam a viver juntas, uma bofetada ou um insulto não é violência, a violência no namoro não é uma situação comum nem séria, não existe violência sexual no namoro, quando se gosta de alguém deve-se fazer tudo o que ele/ela gosta, os rapazes nunca são vítimas, é melhor ter um/uma namorado/namorada violento/violenta do que não ter namorado/namorada, a violência no namoro é um problema privado.

Da famosa canção infantil do Sebastião que dá pancada na mulher aos ditados populares, tudo contribui para um imaginário desculpabilizador.

Tinha alguma curiosidade em conhecer o desdobramento destes dados segundo a pertença de género mas, infelizmente, não os encontrei. Gostava de saber se eles confirmam (ou infirmam) esse outro ditado popular (adaptado): de pequenina se traça a rotina.

Vá lá, desta vez não houve tiros…


A Polícia de Segurança Pública continua a coleccionar episódios de brutalidade e violação dos direitos humanos. Desta vez, as vítimas foram dois estudantes que na madrugada de terça-feira andavam pelo Bairro Alto. Parece que o Vasco e a Laura estavam a fazer demasiado barulho para o gosto do quarteto fardado que apareceu no local e decidiu repor a tranquilidade distribuindo murros e pontapés, antes de os algemarem. Já na esquadra da Praça do Comércio, voltaram a repetir a dose, tendo ainda a delicadeza de informar os jovens que tecnicamente não se encontravam detidos, pelo que não teriam direito a fazer nenhum telefonema. Saíram em liberdade às 4h30 da manhã e minutos depois deram entrada nas urgências de S. José.

O Vasco foi operado a um maxilar e não deve voltar a abrir a boca nas próximas 3 semanas. Pelo contrário, o comando da PSP tem a obrigação de dar explicações o quanto antes. E já agora, porque não aproveitar para pedir desculpa pelo comunicado com que enganou a opinião pública, ao garantir que o rapper MC Snake tinha desobedecido à ordem de paragem numa operação stop? Afinal, a investigação concluiu que nunca chegou a passar por ela na noite em que acabou baleado mortalmente por um agente da PSP.

Onde anda a esquerda do PS?


José Castro Caldas no Ladrões de Bicicletas.

O género e o emprego


Por sugestão do amigo Fala Ferreira, fui descarregar os dados do último Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística relativos ao 1º trimestre de 2010, publicados no passado dia 19 de Maio.
José Ferreira, que já analisou o documento, infere sobre as conclusões do Inquérito:


O regresso destes homens agora desempregados ao mercado do trabalho (eventualmente, no fim da crise...) significará, como nos períodos entre guerras, o retorno das mulheres ao emprego único ou ao trabalho doméstico, desaparecendo placidamente das estatísticas. Uma outra consequência disto (como se verificou tantas vezes em Portugal e com péssimos resultados para o sindicalismo operário) está intimamente ligada à disparidade de salários entre homens e mulheres e prende-se com a redução efectiva do valor dos salários que, consumada através da mão-de-obra feminina, se prolonga a toda a escala.


O cenário da nossa economia e da nossa política é tão século XIX que só me lembra as Farpas do Eça de Queirós:
"O partido reformista apareceu um dia, de repente, sem se saber como, austero, pesado, grosso, com uma voz possante. [...] Então os mais audaciosos fizeram-lhes perguntas. [...]
"- Assim por exemplo a questão religiosa é complicada, qual é o seu princípio nesta questão?

- Economias! disse com voz pesada o partido reformista.

Espanto geral.

- Bem! e em moral?

- Economias! bradou.

[...]

- De quem gosta mais, do papá ou da mamã?

- Economias! bravejou."

«Rocío» ou a memória proibida de Franco

Nos próximos dias 25 e 26 de Maio, pela mão da CULTRA, o público poderá ter um encontro invulgar com a história recente espanhola, respectivamente em Coimbra e em Lisboa. Trata-se da exibição do documentário Rocío, de Fernando Ruiz Vergara. Um filme incómodo, cuja exibição acabaria por ser proibida em Espanha por ter identificado as vítimas e, principalmente, os principais responsáveis da repressão franquista em Almonte, local da famosa romaria que dá título à fita.

Em Coimbra, dia 25, às 21:30 no Teatro da Cerca. Em Lisboa, dia 26, às 21:00 na Livraria Ler Devagar (Lx- Factory). Ler mais...

«A crise da zona do euro e o retorno do Estado regulador em debate»

É o tema de capa do último número da Revista IHU On-Line. Uma visão que nos chega do outro lado do Atlântico, e que não se detém apenas pela situação europeia. Um conjunto de entrevistados converge na noção do fim «momento neoliberal do capitalismo» e do retorno da centralidade do Estado Regulador. No meio de muita indeterminação, «o que está claro é que o tipo de capitalismo que vai surgir dependerá muito da luta social, da formação do imaginário popular, que, na verdade, não depende muito dos iluminados, mas da capacidade de informação e compreensão do que realmente aconteceu. Isso vai se formar na luta política.»

James Petras, um dos entrevistados, é mais cauteloso, mas aponta para uma reorganização da política, maior polarização entre a direita e a esquerda, e o fim da chamada Terceira Via.

Portugal 0 - Cabo Verde 0

Não seria de a selecção portuguesa reservar já esta senhora para os primeiros jogos?

Entrevista de Joseph Stiglitz no le Monde

Apesar deste senhor achar ou ter achado que corremos o risco de falir, vale a pena ler esta sua entrevista:) Leiga nestas matérias me confesso,contudo, assim de repente , tendo a achar muitas das coisas que Stiglitz aqui diz, acertadas.



Sábado, vamos à luta!


Agora a sério


Conhecimento carnal. É isso que os amantes confiam um ao outro, conhecimento um do outro, não da carne mas através da carne, conhecimento de si mesmo, de si mesma, in extremis, e sem máscaras. Todas as outras versões de nós mesmos estão expostas ao público.

Agora a sério (The real thing, 1982) de Tom Stoppard (versão de Pedro Mexia, 2010), pág. 140.

A ver, em cena no Teatro Aberto, sala azul (Lisboa).

Laferialândia

Nunca mais? Corremos o risco de La Feria nunca mais abandonar o teatro onde se barricou há 5 anos desalojando outros públicos da cidade. Agora o Tribunal vem dar razão sem efeitos práticos, à moda de Kant, à Plateia. Dias antes ficámos a saber que o contrato é renovável "por períodos sucessivos de seis meses". Dará tempo para uma colecção de "o melhor musical de sempre” e vários “o papel da minha vida” de José Raposo.
Entretanto, a Feira do Livro ainda não tem lugar certo (Boavista, Aliados, quiçá parque de campismo da Prelada ou cemitério de Paranhos) e este fim de semana houve mais corridas para toda a família. Isto está de gritos, mas quando eu que pensava que o Fantasporto já não estava na cidade, eis que me deparo:



Que susto!



JLG | Film Socialisme

Por falar em Iago


Quando os parlamentares ouviram dizer a sessão que hoje votou a moção de censura ao Governo promovida pelo PCP iria ser encerrada com discurso do ministro Augusto Santos Silva (A.S.S.), O Desbragado, ouviu-se, segundo a jornalista da RTP, um "bruáááá significativo" na sala.
O discurso, foi, no entanto, altamente literário, com direito a referências a Shakespeare dirigidas à direita e efabulações dignas de um Louis Carrol em ácidos (passo o pleonasmo) à esquerda.
Segundo expôs A.S.S., quem não está com o Governo, está com a direita; quem não subscreve estas medidas é irresponsável político e anti-europeísta; quem propõe esta moção está a querer travar a rápida recuperação económica do país promovida pelo Governo; quem subscreve um apupo contra ele quer travar a sua veemente aposta no desenvolvimento científico, na modernização dos serviços públicos e na criação de riqueza para o país.
Quanto aos outros, os que prometiam abster-se (e abstiveram), foram apelidados de "Iagos" que, se bem se lembram, é a figura por excelência da conspiração e do revanchismo em Shakespeare.

A moção de censura que hoje foi a votar teve um magnífico efeito: o de revelar as agendas que nem PS nem PSD quiseram dar a conhecer durante as negociações para a viabilização do PEC e das "medidas de austeridade", nomeadamente no que diz respeito aos ataques ao valor dos salários. Quais abjectos conspiradores, PS e PSD, o Governo sem pasta, dão o braço ad hoc para patrocinar o saque aos trabalhadores pela sua desmoralização, pelo desgaste do seu sentimento de classe e, no fim, sem graça nem brio, atacam-se mutuamente num debate culpado e fratricida.
Que aguardem, pois, pelos desenvolvimentos, que a "Tea Party do Mad Hatter" é já no dia 29 de Maio e aí se poderá julgar qual a base de apoio destes dois Governos. Cai ou não cai? Cai, pois!

É impressão minha ou isto é fundamentalismo?

Já há dias tinha dado aqui notícia da actividade do grupo católico Mãos Erguidas, que se planta à porta da Clínica dos Arcos a rezar. Ontem, no canal público, pude conhecer, em discurso directo, o que pensa esta gente.
Para conter a minha raiva e evitar o uso de palavrões, fui recuperar as vozes dissonantes, dentro do catolicismo, sobre o aborto e fui rever o que pensam as Católicas pelo Direito de Decidir:

«O direito das mulheres decidirem sobre seu corpo, a sexualidade e a reprodução deve ser garantido pelo Estado. A tradição teológica cristã permite recorrer à própria consciência para tomar decisões éticas e exercer o sagrado direito de decidir. Por isso, apoiamos quotidianamente a luta pela descriminalização do aborto».

«Ela estava grávida de seis semanas. A sua situação vital era seriamente incompatível com a maternidade e tornava-se-lhe insuportável pensar em dar a sua criatura para adopção. Depois do aborto disse-nos que pensava que a decisão que havia tomado era a correcta, mas que tinha pago o seu preço em lágrimas e dor. Recordo os seus agudos comentários sobre os piquetes de manifestantes que rezavam o rosário em frente da clínica: "Tomavam um símbolo precioso da minha fé e convertiam-no numa arma contra mim"».

A estas mulheres, às Católicas pelo Direito de Decidir, presto a minha homenagem.

"Eu estava numa plateia de espanhóis e todos perceberam!"

Sai um plural para o novo feriado, fachabôr!

Socialistas querem acabar com quatro feriados mas criam o Dia da Família.

All My Independent Women

CASA DA ESQUINA (Coimbra) apresenta a quinta edição da exposição All My Independent Women, a inaugurar dia 21 de Maio, pelas 19H00. Patente até 18 de Junho.
Sexta das 17H00 às 20H00, Sábado das 15H00 às 19H00,Terça e Quinta por marcação.

Do encontro, por um lado com a Casa da Esquina e por outro com o livro Novas Cartas Portuguesas, de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, surgiu a vontade de realizar pela quinta vez o projecto All My Independent Women, projecto artístico que procura problematizar as questões de género. A vontade de voltar a trabalhar com quem recebe o projecto de braços abertos e o nutre como seu, e de reler colectivamente esse livro, marco do feminismo em Portugal, levou, assim, à recuperação da experiência colectiva das Cartas; com cerca de 40 participantes procura-se a construção de uma nova subjectividade, procura essa que retoma a linha da paixão, paixão que será o próprio objecto e exercício, porque o objecto da paixão é mesmo pretexto, pretexto para nele ou através dele, definirmos, e em que sentido, o nosso diálogo com o resto.

Amarante Abramovici, Tiago Afonso, André Alves, Filipa Alves, Ana Luísa Amaral, Maria Isabel Barreno, Maria Graciete Besse, Miguel Bonneville, Ana Borges, Mariana Caló, Christina Casnellie, Carla Cruz, CES, Luís Eustáquio, Mónica Faria, Alice Geirinhas, Projecto Gentileza, Risk Hazekamp, Nina Höchtl, Maria Teresa Horta, Rudolfine Lackner, Cláudia Lopes, Marias do Loureiro, Ana Gabriela Macedo, Micaela Maia, Sameiro Oliveira Martins, Cristina Mateus, Vera Mota, Adriana Oliveira, Márcia Oliveira, João Manuel Oliveira, Maria de Lourdes Pintasilgo, Ana Pérez-Quiroga, Rita Rainho, Flávio Rodrigues, Suzanne van Rossenberg, Unknown Sender, Ângelo Ferreira de Sousa, Catarina Carneiro de Sousa, Evelin Stermitz, Paula Tavares, Virgínia Valente, Francesco Ventrella, UMAR, windferreira e as Novas Cartas Portuguesas.

Desempregadas/os precisam-se!






Andrea Inocêncio e Mariana Bacelar definem-se como " artistas / desempregadas / trabalhadoras precárias" e estão na net à procura dos/as seus/suas modelos. Com a performance colectiva "Monumento ao Desempregado do Ano", pretende-se, na linha da intervenção urbana de artistas como Gilbert & George, Joseph Beuys, Rirkrit Tiravanija ou do movimento Fluxus, encenar o maior monumento vivo à maior conquista dos nossos tempos: a precariedade no trabalho e o desemprego.
Nos dias 5 e 6 de Junho, nos Jardins de Serralves, no Porto, Andrea Inocêncio e Mariana Bacelar vão coordenar uma gigantesca estátua viva que corporize e dê visibilidade aos números e às estatísticas da corrosão do valor do trabalho.

Esta intervenção, realizada bem no coração do Monumento aos recibos verdes, foi seleccionada durante o Concurso Projectos Artísticos para o evento "Serralves em Festa! 2010", orientado para a divulgação de novos valores em arte contemporânea portuguesa. A pertinência desta intervenção, ironicamente patrocinada pelo poder instituído, ganhou, com a divulgação do relatório da inspecção da Autoridade para as Condições de Trabalho de 4 de Março de 2010, um sentido renovado que só poderá acrescentar ao valor conceptual (e plástico, se as/os precárias/os de Serralves assim o entenderem) do trabalho das artistas.

As inscrições para integrar o "Monumento" estão abertas em
http://monumentoaodesempregadodoano2010.blogspot.com/
Fica o programa das festas:

Dia 5 de Junho às 14h30
Dia 5 de Junho às 17h00
Dia 6 de Junho às 14h30
Dia 6 de Junho às 17h00, sempre nos Jardins de Serralves.

A paixão de Serralves pelos falsos recibos verdes

"Às vezes os gestores esquecem-se de injectar as pessoas com entusiasmo. Elas têm de estar motivadas e entusiasmadas com os projectos. Têm de os viver de uma forma quase apaixonada.”
Odete Patrício, directora-geral da Fundação Serralves, à revista Máxima.

No dia 4 de Março, os inspectores da Autoridade para as Condições de Trabalho entraram em Serralves para verificar a situação de falsos recibos verdes dos recepcionistas ao serviço da Fundação. Mesmo sem receber vários dos documentos solicitados à Fundação – mapas de pessoal e horários, prova de realização de seguro de acidentes de trabalho, entre outros –, o relatório da inspecção foi entregue uma semana depois da visita e concluía assim:
"Assim, é nossa convicção que se verifica a presunção da existência de contratos de trabalho entre a Fundação de Serralves e os recepcionistas ao seu serviço, dado tratar-se da realização de uma actividade por forma aparentemente autónoma mas em condições características às do contrato de trabalho, e que causa prejuízo ao trabalhador e ao Estado, razão pela qual será levantado o respectivo auto de notícia, de acordo com o art.º 12.º. do Código do Trabalho".
A directora-geral da Fundação disse aos inspectores da ACT que não conseguiu convencer os trabalhadores a "prestar serviços" a uma empresa externa a criar para esse efeito, e decidiu afastar os 18 recepcionistas a partir de 12 de Abril. Mas a ACT, em vez de fazer o que lhe competia, impedindo o despedimento ilegal, resolveu esconder o relatório já concluído a 11 de Março e que dava razão aos recepcionistas de Serralves.

Têm razão o movimento FERVE e os Precários Inflexíveis, que divulgaram agora o relatório que a ACT escondeu:
"Esperamos agora que muito rapidamente a Fundação de Serralves, nomeadamente o seu Conselho de Administração, emende as ilegalidades cometidas e reconheça imediatamente os direitos dos trabalhadores afectados, integrando-os, como é devido, no seu posto de trabalho, com acesso a contratos de trabalho e aos direitos subtraídos durante anos de arbitrariedades."

Trabalho Doméstico, Trabalho Decente

Este vídeo faz parte da série Trabalho Doméstico, Trabalho Decente, que revela a realidade do trabalho doméstico na América Latina e Caribe, assim como as medidas de promoção de políticas públicas para a inclusão e valorização do trabalho doméstico na região. É parte integrate do Programa Regional de Género, Raça e Etnia desenvolvido no Brasil, Bolívia, Guatemala e Paraguai e conta com o apoio do UNIFEM Brasil e Cone Sul (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher).

Alguns bloggers do Minoria andam por aqui

Descubram-nos, que eu não sou bufo.

"Gatekeeping" ou "O Bourdieu é que a sabia toda"

A sessão começou mais ou menos mortiça mas não demorou muito até que o primeiro mandasse a primeira bujarda à internet. Zás! Toma lá! A internet é a grande culpada pela perda de importância dos críticos musicais, a internet é povoada por um bando de adolescentes cheios de sede de protagonismo que mandam meia dúzia de patacoadas sobre música não fazendo a mínima ideia do que estão a dizer, a internet é um espaço fechado ao contrário dos jornais(!), a internet pôs o jornais em crise e os jornais, matreiros, disponibilizam cada vez menos espaço à crítica musical, os críticos são mal pagos por causa da internet. Enfim, foram umas a seguir às outras. O título da sessão era "Gatekeepers e 'grilos falantes': as funções da crítica musical" e os críticos, muito orgulhosos da sua inestimável acção enquanto guardiões de um portal (desculpem lá mas portão não me soa nada bem aqui), bradavam aos céus por não receberem o reconhecimento merecido, por estarem a guardar um portal às moscas e, mais do que tudo, por haver um bando de badamecos na internet que faz com que tudo pareça muito fácil e dá de graça aquilo que eles tentam vender.

"Aquilo"? Não. Essa gente que debita opiniões não pode ser inserida verdadeiramente na categoria dos críticos. Porquê? Não se sabe muito bem. Entre dizer que eles não escrevem em jornais (que utilizaria os mecanismos de recrutamento de recursos humanos dos jornais enquanto legitimadores de críticos) e dizer que, no campo da crítica, o grupo outrora hegemónico está a perder a hegemonia em detrimento de um grupo de bandalhos (que nem sequer têm a honra de serem considerados críticos) por razões que não percebem, optaram por continuar a lamuriar-se e a dizer mal dos ingratos que não lhes agradecem o suficiente.

O que esta gente não percebe é que o portal que guardam está cada vez mais às moscas porque ao longo do muro, com a massificação da internet, foram sendo abertas brechas, portas, portinholas, janelas e janelinhas. Ou seja, as fontes de produção artística com acesso ao espaço público multiplicaram exponencialmente e, para o bem e para o mal, são precisamente os badamecos da internet que conseguem dar conta do recado e de manter a contabilidade sobre quem entra e quem sai dessa multiplicidade de brechas. O potencial consumidor precisa cada vez menos de alguém que lhe diga o que é bom e o que é mau. Antes, com a quantidade esmagadora de informação, precisa de quem consiga construir e actualizar permanentemente as cartografias das brechas. Os críticos não estão a ser capazes de o fazer e agora queixam-se que guardam uma passagem por onde ninguém quer passar. Temos pena.

Andar para trás

Percebo perfeitamente a lógica estratégica em que assenta a reivindicação do casamento deixando a questão da adopção para outras calendas. Não a ponho em causa. Os movimentos sociais que a adoptaram lá saberão de si. Ainda assim, a promulgação (justificada com um discurso absolutamente asqueroso, mas isso são outros quinhentos) da lei que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS) constitui um passo atrás que dificilmente se coaduna com o clima de festejo com que foi recebida.

A questão do casamento nunca foi, pelo menos para mim, uma questão que estivesse relacionada com a viabilização de uma prática. Parece-me que a questão mais importante neste processo é a do reconhecimento. Nesse sentido, a proposta macabra de arranjar qualquer coisa parecida com o casamento mas com outro nome, não fazia qualquer espécie de sentido e não resolvia a questão de fundo: a da desigualdade de direitos. É por isso que me faz especial impressão que se tenha festejado a promulgação que não aprova mais do que um casamento de segunda (Cavaco Silva teria preferido um casamento de terceira) por deixar explicitamente de fora a possibilidade da adopção. Não estamos a falar de um casamento igual aos que já existiam, estamos a falar, em certa medida, de um casamento especial, um casamento entre duas pessoas que, segundo a lei, pela sua orientação sexual, não são capazes de criar uma criança. Este impedimento, repito, explícito na lei, constitui, por isso mesmo, um retrocesso.

Bem sei que é fácil debitar sentenças sobre os direitos dos outros mas parece-me que a situação que se vai criar é mais injusta e mais retrógrada por criar uma lei que discrimina explicitamente casais de pessoas do mesmo sexo no que diz respeito à sua possibilidade de adoptar. Apenas me pareceria justa a consagração de um casamento por inteiro. Agora, se os destinatários desta lei preferem a nova situação à velha, já não é comigo. Mas se o fazem, estão a preferir uma situação que, a meu ver, é mais discriminatória.

Corridinho

29 de Maio, Manifestação Nacional para que dances o corridinho.

Notas sobre um 17 de Maio a não esquecer

Só um breve feedback do dia de ontem. Dia em grande para os direitos LGBT em que decorreram várias iniciativas, inclusive a 1ª Marcha contra Homofobia e Transfobia em Coimbra com 250 a 300 pessoas segundo a polícia, ou seja: os dados da organização apontam para mais de 300 :). Contou inclusive, e foi muito importante para nós, com a presença de organizações e activistas de Lisboa e Porto.
Só estou um pouco frustrada com as notícias que reportam "factos errados" - exemplo: que a OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais há 10 anos quando foi há 20 e que isso lhes foi dito várias vezes - ou reportarem mal palavras de ordem ("nós somos famílias , sabemos amar, filhos não -o que dizemos é - fazemos, queremos adoptar"); ou títulos a salientar uma frase dita por alguns/mas presentes irónicamente e a brincar mas reportadas como se fosse um protesto "Até a televisão é homofóbica" (isto porque volta e meia a transmissão das declarações do PR "iam abaixo "); confundirem uniões de facto com casamento; e num ou 2 casos declarações inventadas. Mas ainda assim houve bons exemplos como o Público, a antena 1/ antena 3 (RDP) e possivélmente outros de que me estou a esquecer. Há ainda nitidamente todo um trabalho a fazer com jornalistas para o tratamento destas matérias.
Quanto ao nosso Presidente: é mesmo sui generis. Ele que é profundamente contra o casamento civil por parte de pessoas do mesmo sexo e muito conservador em matéria de costumes e liberdades individuais vai me escolher o Dia 17 de Maio para promulgá-la, mas com um discurso muito marcado em termos ideológicos (ou dito por outras palavras "com um discurso de merda":).
Que eu me lembre, durante o seu mandato só fez 3 declarações ao país: uma em que fez um alarido enorme durante as férias e foi me falar do estatuto dos açores :); outra sobre o caso das escutas em que só pôs os pés pelas mãos e descredibilizou-se por completo; e esta em que faz uma declaração ao país para, como disse o Diogo, um assunto que ele considera menor (poderia ter optado por uma comunicação ao parlamento como fez para o aborto), e ainda aproveita para bater no Governo com a crise e mandar os seus recados, já claramente em campanha. É o Presidente que temos e desconfio que aquele que teremos..

Clarinho com'a água

O casamento entre pessoas do mesmo sexo não é uma matéria que mereça a nossa atenção neste momento de crise. Não deve ser uma prioridade política porque não constitui uma preocupação para os portugueses. Não devemos gastar os nossos esforços e energias neste assunto. E para provar que é coisa que me passa completamente ao lado, vou fazer uma declaração sobre o assunto em directo para os telejornais às 20h15.

Les vieux


São idosos, velhos, alguns dementes, chatos, senis, xexés e gagás, mas não são crianças, não são orfãos nem são DOTs! Por isso, porque falam em adopção?
E até há quem, num surto de filantropite aguda, se voluntarie a levá-los para férias (se o hotel os permitir, claro). À parte isso, nada contra.

Se não tivesse sido feito o que foi feito, escusávamos de ter feito o que fizémos

Felizmente, Pedro Adão e Silva reproduziu parte do argumento que apresentou na última edição de "Bloco Central". De facto, fazer uma razia à rede de mínimos sociais como preâmbulo das medidas que uma ou duas semanas mais tarde viriam a ser tomadas potencia os seus perigos. De facto, é em alturas como esta que se torna mais necessário ter um subsídio de desemprego, um subsídio social de desemprego e um rendimento social de inserção mais abrangentes. Palminhas, portanto.

Fica, ainda assim, por explicar como é que se articula um "em política não há inevitabilidades" com um "governo e oposição foram obrigados a fazer inevitável", um discurso de exaltação da política enquanto gestão de "inevitabilidades" com "os ajustamentos violentos que são inevitáveis". É que fica a ideia de que são sempre as penúltimas medidas que poderiam e deveriam ter sido evitadas, sempre as penúltimas que não eram inevitáveis. É que o clima de chantagem permanente, como a Grécia prova, começa a não pegar precisamente porque o erro nunca é "este", é sempre o "outro".

Paris, what a city


É verdade que os centros históricos são reservas naturais para turistas, limpinhos, artificais, pintados de fresco. Em Paris, no café de Flore já não param Sartre nem Beauvoir, Picasso há muito abandonou as ruas de Monmarte, Gainsbourg está algures enterrado em Monparnasse e já não dança La Décadanse nem ataca meninas indefesas. A cidade é “mortalmente aborrecida” (já dizia o Rui Tavares) com esplanadas iguais em todos os lados e turistas hávidos de crepes, Lafayettes, compulsivos do disparo fotográfico.

Augé (com quem tenho contas a ajustar por causa de uns terrenos) fala do turismo como uma parte da humanidade que olha a outra como espectáculo “sem que a natureza do espectáculo conte realmente (...) como se, em última análise, o espectador em posição de espectador fosse para si próprio o seu proprio espectáculo”. Como se só longe daqui encontrássemos parte de nós e essa parte se resumisse ao sorriso decalcado nos sucessivos palcos de uma fotografia.

(Na imagem: Eu em Paris com carrinho de compras e bonhomme a gritar La vie en rose)

Amanhã, seremos tod@s gays, lésbicas, bis, transsexuais e transgéneros!

Foto da baixa de Coimbra
1ª Marcha contra a Homofobia e Transfobia em Coimbra. Concentração às 16h30 no largo da Portagem.

Amanhã - Dia 17 de Maio - é o Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia. Porquê? Porque foi a 17 de Maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde decidiu retirar da sua lista de doenças mentais a homossexualidade e que convém (re)lembrar, para os/as "mais esquecidos/as", este dia, assinalá-lo, festejá-lo e fazer com que outros dias marquem a história.

Desde aí, inúmeros (grandes) passos foram dados. E estes não aconteceram sozinhos, "com o tempo". Aconteceram porque houve muitas pessoas, organizadas em associações, movimentos (com grande destaque do Movimento LGBT), estruturas partidárias, etc, ou a título individual - que se mobilizaram para que tal acontecesse. Foi portanto fruto da ACÇÃO, da informação, da visibilidade, da discussão, da ocupação do espaço público, de todo o tipo de iniciativas (das mais institucionais às mais "radicais") que foi possível uma tomada de consciência, uma mudança de mentalidades, mesmo que ainda não acabada, como possívelmente quase tudo na vida.

E é porque ainda há muito por fazer, não só a nível legal mas também, talvez sobretudo, a nível social e cultural, e que as coisas não mudam "por si", que importa continuar. Todos/as.
Não estou certa disso mas parece-me que este ano será possívelmente O ano em que a 17 de Maio vão acontecer mais e diversificadas iniciativas. Devido ao meu maior envolvimento nesta iniciativa destaco, claro, a 1ª Marcha contra a Homofobia e Transfobia em Coimbra! (site da iniciativa: http://www.marcha2010.naoteprives.org/) em que estarei; organizada por várias organizações e pessoas, apoiada por outras tantas; e que espero que, apesar de só ter decidida, delineada e divulgada há pouco tempo, seja bastante participada! Sejamos 30, 40, 50, 100 , ? já será, sem dúvida, uma vitória.
Mas amanhã também haverá:
- Conferência Contra a Homofobia - Identificar e Combater a Discriminação das pessoas LGBT , em Lisboa, organizada pela CIG, a ILGA, a Rede Ex Aequo e a AMPLOS. Ver aqui
- Um Free Hug, depois da conferência, na Gare do Oriente.
- Uma Acção de Rua ,no Porto , organizado pelo Caleidoscópio LGBT e a CASA.
E houve este fim de semana: um Encontro Nacional das Panteras Rosas, no Porto, a 14 e 15 ; Kiss in, em Lisboa e no Porto, a 15 de Maio, pelo Mica-me.
E , por certo, que haverá mais, como debates e sessões em escolas, campanhas de informação, etc. Amanhã, todos/as a assinalar e festejar o Dia 17 de Maio!
Eu vou Porque enquanto mulher, feminista e cidadã, recuso-me a compactuar com discriminações que enquanto sociedade e pessoas só nos enfraquecem e diminuem. Porque não aceito as caixinhas nas quais teimam em nos categorizar. Porque quero contribuir para que todas e todos possamos viver numa sociedade livre de preconceitos. Porque as identidades , os afectos e os amores não obedecem, nem devem obedecer, a ditames de outrém. ( O Meu depoimento para o site da Marcha; no site encontrarão muitos outros).
Adenda: Soube entretanto que também vai decorrer hoje , no Terreiro do Paço, às 22h, uma manifestação pública organizada pelo Rumos Novos - Grupo Homossexual Católico, "Falando acerca do silêncio: Uma vela em homenagem a cada vítima da homofobia".

Como sair da crise: o PEC II do bloco central

A cretinice anda à solta em Mirandela

Nos últimos tempos, a cretinice tem assentado arraiais em Mirandela. Primeiro foi o bullying de que foi vítima Leandro que convocou os holofotes; agora é a vez de Bruna Real, a professora que posou para a Playboy.
Nestes dois casos, o que há verdadeiramente a lamentar é a actuação da Câmara Muncipal.
No primeiro caso, a direcção da escola e os docentes foram ilibados pelo Ministério da Educação de qualquer responsabilidade. Como o pessoal não docente depende da Autarquia, esta, à falta de mordomo, instalou um processo disciplinar ao porteiro por este não ter impedido a saída dos alunos durante o seu turno. Podia contar-vos várias histórias de como, no meu tempo, se iludiam os porteiros e se comiam diariamente Fás e Petas Zetas comprados na mercearia. Como acredito que todas e todos nós temos histórias semelhantes, poupo-vos a essa incursão histórica.

Já no caso da professora Bruna Real, a Câmara Municipal, responsável pela contratação de docentes de actividades extra-curriculares (AEC), decidiu agir e a Vereadora da Educação, Maria Gentil, tomou as seguintes decisões:

«Na sequência do alarme social provocado pelos notícias, tomei a decisão de afastar a professora do contacto dos alunos e de toda a comunidade escolar, não podendo assim exercer mais a sua actividade lectiva este ano».

«Como estas contratações são feitas anualmente pela Câmara Municipal, informo já que no próximo ano lectivo a professora não será contratada».


Por sua vez,
o director do Agrupamento de Torre de Dona Chama, onde a professora leccionava, perora dizendo:

«Estamos a fechar o ano lectivo, mas aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora. Não é uma atitude correcta e em nada pode ajudar a relação com os alunos e muito menos com os pais, que têm ouvido muitos comentários».


Devo ter andado distraída porque me escapou a notícia da criação de uma nova polícia dos costumes, com poderes descentralizados pelas autarquias e agrupamentos escolares. É que nada disto faz sentido: se a professora, no âmbito da sua actividade profissional, é competente e cumpridora, como pode a entidade empregadora despedi-la invocando actos que são do foro privado e que não constituem crime à luz da lei?
O que, do meu ponto de vista, é motivo para «alarme social» é o facto de as autarquias contratarem professores a recibo verde, para além de estarem cheias de gentinha deste calibre, que sendo detentora de cargos públicos os usa para impôr a sua moral púdica. (E também ninguém me tira que se a contracena das fotos tivesse sido com um homem o «alarme social» seria menor. Mas isto sou eu a pensar).

De todas as notícias que li ficou-me ainda esta perplexidade:

A imprensa diz que a revista Playboy deste mês esgotou em Torre de Dona Chama. Que a Playboy chegue a uma freguesia com 1386 habitantes já acho extraordinário; que ela esgote é, sem dúvida, a confirmação de Torre de Dona Chama como capital portuguesa do erotismo.

Tenho saudades do tempo em que quando me falavam de Mirandela a primeira coisa de que me lembrava eram as alheiras. Agora, infelizmente, quando me falam de Mirandela o que me vem imediatamente à cabeça é a cretinice do poder autárquico.

As coisas de que os Papistas se lembram...


Era uma vez uma associação feminista portuguesa que resolve lançar a edição de um "jornal" gratuito chamado I-Diário, jogando portanto com o I de informação, com a palavra Diário e com, sobretudo, a palavra Ideário dado tratar-se de um jornal com um discurso crítico e alternativo áquele com que temos sido bombardeados/as, cujas notícias seriam para elas e para muita gente (incluo-me neste lote como devem imaginar) as Ideais.
Até aqui tudo certo né? Esperem..

Esse "jornal" foi distribuído à porta do metro do Chiado, e por aquela zona, na segunda feira dia 10. A escolha do dia de segunda feira não foi, claro, por acaso, prendeu-se com a chegada do Papa. Tinha notícias como "Mulheres vão poder ser padres"; "Brown defende acto de contrição na questão da Guerra do Iraque"; "Anulada a dívida externa do Haiti"; "Número dois do Vaticano apela a uso de contraceptivos" etc.
Ok, tudo bem. Trata-se de liberdade de expressão; criatividade; espírito e discurso crítico. E então?

E então que neste pequeno país à beira mar plantado, a UMAR recebe no dia 11 um e mail do gabinete de advogados representante da empresa "SOJORMÉDIA CAPITAL, SA", proprietária do Jornal i informando ter tomado conhecimento deste "jornal" e cita-se "V.Exas conceberam e distribuem um jornal gratuito intitulado i diário. Jornal que toma várias posições contrárias à Igreja Católica em geral e de Sua Santidade o Papa Bento XVI", e intimam a UMAR a recolher todos os jornais.
É claro que a UMAR não recolheu rigorosamente nada e emitiu um comunicado que podem encontrar no site http://www.umarfeminismos.org/

Esperem que ainda não acabou...No dia a seguir, adivinhem lá quem foi bater à porta da UMAR: A ASAE, ah pois é! E anunciaram...uma queixa crime de contrafacção, imitação e uso ilegal de marca, apresentada pela SOJORMÉDIA CAPITAL , SA. E....apreenderam os exemplares que restavam!

Fantástico não é?! Comentários para quê. Como é que é aquela palavra? C_E_N_S_U_R_A? será isso? E aquela ...E-s-t-u-pidez, também aplica-se bem. Haveria outras, pois claro :)

A UMAR lançou novamente um comunicado e organiza a 20 de Maio uma tertúlia "Mundos ideiais censurados: feminismos e religiões".

E agora, como é óbvio, é divulgar o "jornal" IDEÁRIO por todo o lado! (Ver adenda).
Adenda: Agora sim, está aqui ( este ) , circula pelo facebook e em breve estará na página da UMAR.

Descubra as diferenças

Já passei noites em branco, ao relento, debaixo de chuva, (pouco) protegido por um bocado de plástico, para ver isto:

Mas passar noites em branco, ao relento, debaixo de chuva para ver isto:

já me soa um bocado parvo.

Com o Papa andamos para trás

Num encontro com agentes da pastoral social, o Papa reiterou ontem a condenação do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e defendeu a indissolubilidade do matrimónio:



Quanto aos mecanismos socioeconómicos, até eu aplaudo, uma vez que defendo que as mulheres que não têm capacidade económica para prosseguir uma gravidez desejada devem ser apoiadas, de todas as formas possíveis, de modo a que a sua decisão seja respeitada. Por isso é que a maternidade se inscreve no campo dos direitos e não das obrigações.
Mas o que são os «mecanismos culturais» que levam ao aborto? Estará, porventura, a referir-se ao direito das mulheres terem um projecto de vida que não inclua a maternidade ou ao seu direito de escolher o momento em que querem ser mães? Estará a referir-se a uma sociedade em queda que lhes permite tamanha monstruosidade? Estará a afirmar que as mulheres que escolhem não ter filhos estão a negar a sua identidade? Deve ser por isso que a doutrina vaticanista inscreve o respeito pelas mulheres na sua capacidade e concretização procriativas (ver, por exemplo, a carta apostólica Mulieris Dignitatem).

Apesar do efusivo aplauso com que foi presenteado, deveria ter sido explicado ao Papa que os católicos e as católicas deste país não só contribuíram com o seu voto para alterar a lei que perseguia criminalmente as mulheres acusadas de aborto, como também têm um espírito bem mais tolerante do que aquele a que o Papa exorta: os valores morais são preceitos individuais e as leis não devem impôr convicções religiosas. Isso sim, é o bem comum.

O que o Papa nos veio dizer, em matéria de costumes, é que o último século português foi uma autêntica perda de tempo.

Num bairro moderno



O papa vai passar de carrinho na rua Zeca Afonso. As minhas vizinhas vão estendendo, ora tímidas ora orgulhosas, colchas e panos nas varandas. Desde manhã que polícias circulam pela rua, dois pra lá, dois pra cá. Elas adoram-no(s) e acumulam-se nas grades. Oh “Caridade, a quanto obrigas/Só trinta mil voluntários/‘Cristo reina Cristo vinga'/Nos vossos santos ovários”.
E daqui a nada vamos todas gritar: Bibó papa bibó papa bibó papa...
Já caem anjos num alguidar.

Afinal, a Académica ainda é um clube de estudantes

Numa das últimas revisões dos Estatutos da Associação Académica de Coimbra (AAC) - em que participei na qualidade de elemento da lista do Conselho de Repúblicas - discutiu-se o uso dos símbolos da AAC fora do âmbito das actividades próprias da Associação, nomeadamente pelos organismos autónomos. Isto incluía o merchandising do clube Associação Académica de Coimbra - OAF, organismo autónomo que se autonomizou para além de qualquer linha de parentesco antropologicamente definível.
Esta situação alterou-se, contudo, e a Académica pode voltar a denominar-se (carinhosamente) "o clube dos estudantes". Isto porque, segundo o Diário de Coimbra, os jogadores da Académica Lito, Rui Nereu, Amoreirinha e Nuno Coelho concluiram com êxito os cursos das Novas Oportunidades, tendo recebido os diplomas do 9º e 12º ano. A iniciativa foi promovida no âmbito de um protocolo entre a Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral e a Académica - OAF.

O Exemplo


Já seria de esperar que surgisse quem defendesse medidas excepcionais de ataque à crise por via do sacrifício dos "políticos" (entre aspas porque, neste discurso, a palavra não costuma ser utilizada para denominar um grupo de pessoas que se dedicam à actividade política mas a uma corja da pior espécie). Na caixa de comentários de um post que a Andrea aqui colocou, por exemplo, surge um desses casos. Percebendo que a redução dos vencimentos dos "políticos" terá um impacto absolutamente irrisório nas contas públicas, percebo também que a medida é tomada mais como forma de legitimar outras medidas de austeridade, essas sim, verdadeiramente importantes no que diz respeito ao seu impacto no erário público. Percebo também que a medida não faz sentido e que só o faria se tivesse como alvo não "os políticos" mas todas as pessoas que recebem altos vencimentos. Nesse sentido, seria justo um substancial agravamento do IRS nos escalões mais altos do IRS, deixando intactos os vencimentos entre o ordenado mínimo e os 2375€. Atacar de forma proporcionalmente igual quem recebe 475€ e quem recebe 2375€ é, aliás, muito pouco digno de um governo socialista.

Ora, não sou economista e, como Jesus Cristo, não sei nada de finanças nem tenho biblioteca, mas sabendo que o que interessa aqui é equilibrar a balança das contas públicas, só por razões ideológicas se pode teimar na redução da despesa em detrimento do aumento das receitas. Não quero com isto dizer que as razões ideológicas não são perfeitamente válidas, até me custa a entender como é que vem muito boa gente à praça pública apelar a que se deixe de lado a ideologia por uma pragmática tecnocrática em nome do "bem da nação". O argumento é tão mais grave quanto não justifica medidas ideologicamente inócuas mas bem inscritas num ideal de funcionamento das economias baseado em Estados mínimos incapazes de cumprir a sua mais importante função: a de prestar assistência a todos os que, pela via da economia de mercado, não conseguem ter meios de subsistência.

Esta é precisamente a altura em que a ideologia faz mais sentido. Num jogo de estabelecimento de prioridades, de protecção de sectores essenciais, essas escolhas só poderão ser ideológicas porque essa é a natureza da política. A maioria de Esquerda na AR deveria querer dizer alguma coisa, deveria dar indicações do sentido pelo qual queremos ser levados. Poder-me-ão dizer que também há uma maioria do centrão mas se nos lembrarmos do discurso de defesa do Estado, do investimento público e da protecção social que o PS produziu durante a campanha das últimas legislativas, será muito mais justo considerarmos a presente AR como tendo maioria à Esquerda do que como tendo maioria ao Centro. O problema é que somos governados por um PS que tem medo de ser de Esquerda tal como tem medo dos restantes partidos de Esquerda. Um PS que entregou a ideologia, que se rendeu à política como gestão, que, quando os calos apertam, não tem pudor em atacar desempregados e todos os que, pela situação económica se encontram mais fragilizados.

Dar o exemplo, cortando nos vencimentos dos "políticos" não é, portanto, mais do que uma armadilha, um "olha como eu me sacrifico" para sacrificado ver.